A Letra Falante apresenta:

CEP FANTASIA

Tema: Aulas de dança
Volume: 10 cartas

Autoras: Regina Salamonde e Vânia Salek

Personagens:

  • Kátia Sabarova – adolescente de 14 anos que quer ser bailarina
  • Madame Eugenia Neureyeva – consagrada maîtresse de ballet
Set/1977: Kátia c/ 14 anos

Setembro de 1977

Madame Eugenia,

Minha mão treme tanto que não consigo escrever. Quero falá com a senhora tem 3 semanas, mas não tenho coragem e tou com muita vergonha. Por isto Alexei escreve pra mim no computado dele. Alexei é aquele meu amigo que a senhora já viu comigo.

Madame eu fui lá no dia. Tava contente porque queria fazer aquilo. Me lembrava de tudo que a senhora me ensino. Ouvia até aquele bastão fazendo barulho no chão, marcando. Me lembrava da tua voz: dizendo: mais alto, olha o quexo, atitude, abre o peito. Obrigada muito por tudo que fez por mim. Eu sei, Madame, eu sei.

Mas não briga comigo não. Vou contá tudinho pra senhora saber. Tentei sim. Na noite, eu não durmi e tomei só leite porque nada passava na garganta. Ficava na cama lembrando dos passos e ouvindo, como a senhora ensino, a musica na cabeça. Tava indo tudo bem. Tava com coragem e louca pra chegá a hora. A lua foi embora e o dia clareou. Rezei pra tudo da certo. Puxa, era isto que eu queria mesmo!

Peguei a bicicleta da fabrica e na hora certa eu tava lá. Subi correndo todas aquelas escadas, olhando as colunas que adoro. Mudei a roupa logo, entreguei meu cartão e fiquei esperando a minha vez. A musica era alta e tinha garota por todo lugar.

Sentada naquela sala, quietinha, comecei a suar e a sentir calor. Um negócio no estomago subiu e me deu tonteira. Rezei: Ai! Minha Nossa Senhora e Madame Eugenia fica comigo... mas não adiantou. O meu coração batia muito e era a musica que eu só ouvia. Era forte. Aquela musica tava saindo pela minha boca que tava sequinha.Passava a mão na testa para enxugá e, aí, minhas pernas ficaram bambas. Ouvi meu nome: Kátia Sabarova. Era a minha vez... entrei.

Ah! Todas as pessoas olhavam pra mim. Tudo serio. O palco imenso. Desculpe, Madame Eugenia, mas não consegui me vê voando ali, sozinha, em liberdade, na amplitude do céu, como a senhora dizia. Tava presa no chão e com um medo enorme. A minha música começou a tocar e lembrei do passo de entrada mas tudo tava pesado e não dei o grand jeté que a senhora escrevia para eu saber o nome. Tropecei e caí. Caí no chão, no meio das luzes. Foi horrível. Horrível. Olhei pros professores sentados. Todos mexiam as cabeças com caras fechadas. E o moço fez a minha musica parar e ouvi um silencio ensurdecedor...

Saí correndo pela porta lá trás, chorando. Sabia que tinha perdido a minha vez...Foi isso que aconteceu.Tou muito triste, agora. E com vergonha da senhora, também. Por isto demorei a contá. Não briga comigo. A senhora tá no fundo do meu coração. Obrigada pelo seu trabalho e desculpe se decepcionei. Mas achava que tinha que contá.

Amo a senhora muito pela força que me deu. Mando uma pra não ficar triste. Não faz mau, não, tá? Também to feliz sendo jovem-aprendiz.

Um beijo! Desculpe, Madame! Não deu.

Kátia Sabarova.

Out/1977: Violenta descompostura

Novgorod, outubro 1977

Kátia,

Muito antes de receber sua carta, transbordante de autocomiseração, eu já havia tomado conhecimento de seu fracasso. De uma certa maneira, foi o seu desempenho ridículo no teste que me obrigou a sair de Moscou. Passei a ser motivo de zombaria e de comentários feitos à boca pequena: “Dessa vez ela quebrou foi a cara, e não a perna!”, “A menina bem tem talento, mas foi logo escolher Madame Eugenia como professora...”.É claro que ninguém teve coragem de falar na minha frente, mas tenho certeza de que foi esse tipo de coisa que disseram.

Mas não há de ser nada. Há apenas cinco anos, o mundo todo me bajulava. E aqui em Novgorod, onde nasci, as pessoas ainda me tratam como a maior bailarina da Rússia. Mas, algum dia, os que hoje riem de mim vão me reconhecer como a melhor professora de balé do país. Escolhi minha cidade natal para nascer de novo. Não sou como você, que desiste diante do primeiro revés.

Por falar nisso, já que prefere continuar operária, acho bom ter umas aulas de russo para ver se aprende a escrever melhor. Escrevendo desse jeito, nem na fábrica você vai adiante.

Eugenia Nureyeva

Abril/1978: Kátia c/ 15 anos - mudança

Moscou, abril de 1978

Madame Eugenia,

Há seis meses, a senhora me escreveu uma carta que mudou minha cabeça e minha vida. No início, levei um susto, pois senti o quanto estava machucada... Depois, fiquei com suas palavras no meu coração e resolvi não ser aquela que “desiste diante do primeiro revés”. Lembra do filme Luzes da Ribalta com Charles Chaplin? Pois é, o tapa que ele dá no rosto da bailarina que não queria entrar no palco, eu o recebi...

Como a senhora está vendo, estou falando e escrevendo, agora, um russo fluente, pois curso, à noite, um intensivo.

Decidi, também, mudar para Novgorod porque gostaria que continuasse a ser a minha professora! Pretendo entrar para o Bolshoi este ano, quando terei 15 anos. Haverá um teste em novembro. Vou trabalhar numa filial da fábrica, como menor-aprendiz, na linha de montagem. Mudo no próximo mês, se meu chefe conseguir a transferência. Há um quarto na casa da tia de uma amiga que posso alugar.

Não se preocupe comigo. Eu cresci e, junto com a senhora, vou “nascer de novo”!

Obrigada pelo tapa. Creio que minha mãe, se viva fosse, teria me dado dois.

Preciso de seu telefone para entrar em contato quando chegar, está bem?

Um beijo da sua

Kátia Sabarova.

Abril/1978: preocupações

Novgorod, 30 de abril de 1978

Kátia,

Achei intrigante a sua carta. Me fez lembrar um tal de Nelson Rodrigues (um escritor que meu falecido marido, brasileiro, adorava), quando dizia assim: “Na vida o importante é fracassar”. Pois parece que o fracasso lhe fez bem. Só espero que você encontre outros caminhos para continuar a crescer.

Você me diz que será transferida para Novgorod para ser minha aluna. Pretende fazer teste para o Bolshoi em novembro. Daqui a seis meses, portanto...Preciso refletir antes de aceitá-la de novo. Você abandonou o balé depois do seu fiasco, ou continuou tendo aulas? Com quem? Se me disser que teve que parar de dançar para poder estudar russo, eu lhe adianto que não dá para fazer uma coisa de cada vez. Daí a pergunta: como é que vai conciliar 8 horas diárias de balé com o trabalho na linha de montagem da fábrica? Preciso dessas respostas antes de decidir. Além disso, quero deixar claro que só a aceitarei de volta à academia com mais uma condição: serei eu a decidir se você está ou não apta a fazer o teste par o Bolshoi em novembro. Por nada neste mundo voltarei a associar o meu nome a um ridículo desempenho seu. Afinal de contas, não sou sua mãe (não gostei da comparação) e nunca tive filhos.

Para finalizar, aconselho-a a não desperdiçar o seu dinheirinho em cartões importados. Ainda por cima americanos! Guarde-o para sapatilhas.

Eugenia Nureyeva

PS: Não preciso mandar o meu telefone. A Academia de Balé Nureyeva já se tornou bastante conhecida na cidade.

Abril/1978: divulgação

Divulgação da obra de Madame Eugenia

Maio/1978: agradecimento e vou chegar

Maio de 1978

Madame Eugênia,

É surpreendente o incentivo que me concede! Alexei e eu ficamos maravilhados. Muito obrigada. É por tudo isto que quero continuar com a senhora.

Recebi a sua resposta. Estou contente. Obrigada novamente!

Por favor, não perca seu tempo de descanso, pensando em mim. A senhora é pessoa muito importante e não deve se preocupar comigo. Eu cresci, sabe?

Acho que vou conseguir a transferência! Quando chegar, procuro seu número de telefone pela cidade para agendar aquele teste. Não tenho muito tempo e quero entrar para o corpo de baile do Bolshoi no final do ano.

Dançar como vi nas fotos é meu sonho!

Um beijo!

Katia.

Out/1989: viagem Eugenia para Moscou

Novgorod, outubro de 1989

Prezada Kátia,

Estive em Moscou no mês passado apenas para vê-la dançar, depois de tantos anos. Apesar da minha crescente dificuldade de locomoção, fiz questão de viajar assim que soube que você seria a principal bailarina em “O pássaro de fogo”, que foi justamente meu último papel nos palcos.

A sua apresentação provocou em mim uma cabeça-d`água de emoções. Me trouxe de volta momentos de glória e de desespero: as luzes do palco, os aplausos, o ônibus, o acidente, a morte de meu marido, o fim precoce de uma carreira que apenas começava e, depois, a impossibilidade de sequer voltar a fazer parte de qualquer corpo de baile. Foi uma dor muito grande, no corpo e na alma, e achei que não seria capaz de suportar. Mas sobrevivi. O corpo ainda dói bastante, mas a alma ficou assim, meio que dormente.

Foi muito difícil ser sua professora, sabe? Principalmente depois do tombo que você levou no primeiro teste. (Será que algum dia vamos conseguir rir disso?) Eu sabia que o balé estava no seu sangue: quando você dançava, era como se eu estivesse me vendo. Tive medo que você repetisse a minha história, só que piorada: em vez de bailarina, operária de fábrica.

Pensei em me mudar para o Brasil, onde meu marido nasceu. Mas preferi Novgorod, onde nasci eu.Para mergulhar em mim mesma? Para esconder-me no passado? Não sei. O fato é que você veio atrás de mim, como quem joga na cara: o nosso tempo é o presente. Tive raiva. Tive orgulho. Tive medo de novo.

No correr daqueles meses, em 1978, vendo sua determinação, sua disciplina e, acima de tudo, seu talento inesgotável, aprendi a sublimar as mágoas. Apesar de todos os reveses, também para mim o balé sempre esteve acima de todas as coisas.

Depois de você, outras alunas minhas ingressaram tanto no Bolshoi quanto no Kirov, e isso acabou dando algum sentido à minha existência. Mas era a você que eu devia esta carta. Para lhe dar os parabéns e para agradecer o que fez por mim, ainda que involuntariamente.

Ensinei a você tudo o que sabia de balé, e você foi além. Faço votos que aprenda tudo o que não consegui aprender sobre felicidade.

Da sua

Eugenia Nureyeva

Out/1989: agradecimento por sua vida!

Querida Madame Eugenia,

A sua última carta foi a mais linda que recebi! Suas palavras revolveram profundas e grandes emoções em meu coração. Um passado aflorou e é um intenso presente que lhe responde! Observe a foto do verso...

Fiquei emocionada em vê-la nesta bela mulher que me mostrou: frágil, porém forte, sofrida, machucada e sozinha mas guerreira e vencedora em meio a tantos revezes...

Todavia, eu é que tenho que muito agradecer! Como bem disse, a senhora é que me ensinou a perfeição do ballet e eu, como uma esponja, tudo embebi! Estou impregnada de seus ensinamentos, disciplina, energia e talento. Eu era uma fagulha... foram as suas mãos que, abanando esta centelha, transformaram-na numa fogueira!

A senhora soube marcar uma geração! Todas nós, ao desempenharmos nossos papéis, dançamos com suas palavras na mente, com o seu ballet no coração e através de nossas-suas pernas, voamos pelos palcos do mundo.

Nunca estamos sozinhas! A senhora está sempre presente, conosco, recebendo os aplausos das platéias maravilhadas!

Somos muito felizes e isto porque, um dia, a senhora existiu para nós! Falo por todas nós do Bolshoi e do Kirov, das últimas três décadas! Muito obrigada muitas vezes!!

Um beijo da sua sempre Kátia Sabarova.

Jan/1990: comunicação do falecimento

Novgorod, janeiro de 1990

Prezada Kátia,

Acredito que sua carta tenha sido a última alegria de Eugênia teve em sua vida. O estado de saúde de minha irmã piorou bastante desde que regressou de Moscou. Voltou maravilhada com o que viu e chegou a me dizer que sua missão estava concluída. Daí em diante, caiu num estado de profundo desânimo, sem conseguir andar, comer, conversar, nada. Acabou falecendo no dia de Natal, com 70 anos recém completados.

Apesar de seu jeito ranzinza e malcriado, Eugênia era uma mulher de grande sensibilidade. Saiba que você foi uma pessoa importante para ela, que sempre acompanhava sua carreira nos jornais. Pretendo escrever uma biografia sobre minha irmã, a fim de resgatar sua imagem, e peço a sua autorização para incluir a correspondência trocada por vocês.

Muito obrigada por tudo.

Afetuosamente,

Natália Nureyeva

Jan/1990: Condolências/convite do Bolshoi

Moscou, janeiro de 1990

Prezada Sra. Natalia Nureyeva,

Consternada, recebo com o coração dilacerado, esta fatal e triste notícia. Mme. Eugenia foi a grande dama da minha vida! Espero que encontre, agora, a Felicidade que tanto buscou em Vida...

O palco não a pode aproveitar. Todavia, soube ela contemplá-lo ao lhe apresentar grandes talentos.

Foi justa a homenagem que o Teatro Imperial do Bolshoi lhe prestou...

Uma lástima que ela não pode comparecer! Estranhei muito o seu silêncio naquela data... porém, conhecendo-a como todos a conheceram, não estranhamos o fato!

Mal, sabíamos nós! Como recebeu ela a notícia? Ela, certamente, teve conhecimento da inauguração, não é? Se faleceu, no dia de Natal, como escreveu na carta, a homenagem aconteceu só a dez dias do fatídico dia para o Ballet... Ela sorriu? Falou alguma coisa? Gostaria de saber! Eu, particularmente, fiquei felicíssima por ela! Se não ganhou prêmios pelo desempenho pessoal em palco, sua obra o realizou! E sobejamente!

Espero encontrá-la um dia... O meu endereço, a senhora o tem. Se precisar de alguma coisa para a biografia, estou à disposição. Tem, também, a senhora a minha anuência para o uso da correspondência...

Muito triste, abraço-a com emoção! Obrigada por me avisar.

Kátia Sabarova

Convite

Teatro Bolshoi

Tem o prazer de convidar V. Sª. para a inauguração do Salão de Ballet Eugenia Nureyeva

às 17:00 do dia 15 de dezembro de 1989