A Letra Falante apresenta:
Tema: Cartas de Carlinhos e Dna. Ângela
Autoras: Mariucha Rocha e Beatriz Moura
Personagens:
- Carlinhos (Mariucha Rocha)
- D. Angela(Beatriz Moura)
Dona Ângela,
Outro dia que era feriado eu não tive escola, mas minha mãe precisava ir ai trabalhar porque a senhora tinha viajado e alguém tinha que dar comida pro seu cachorro. Foi isso que minha mãe me falou. Bom, minha mãe não gosta que eu fique sozinho em casa e me levou também. Espero que a senhora não fique zangada com ela, mas pode ter certeza que ela não me deixa mexer em nada na casa dos outros. Mesmo assim, eu não mexi, mas vi as coisas que a senhora faz. Minha mãe disse que isso se chama mosaico e que a senhora faz tudo com as mãos. Os pedaços são tão pequenininhos e coloridos, fica bem bonito. Ai então, eu tive uma idéia. Eu guardo muita coisa na minha casa. São coisas de plástico, de papelão e também revistas e minha mãe sempre diz pra aproveitar tudo pra ver se a gente consegue ganhar algum dinheiro pra ajudar nas compras. Será que a senhora poderia me ensinar a usar essas coisas pra fazer objetos de enfeitar? Na escola eu aprendi a fazer um porta retrato com colagem de papel na madeira, pra dar no dia das mães com uma foto minha e minha mãe adorou. Ela botou em cima da geladeira. Quem sabe eu aprendo a fazer coisas diferentes!
Quando a senhora puder é só avisar pra minha mãe. Tempo eu tenho, pois toda hora falta professor na escola mesmo.
Obrigado,
Carlinhos
Obs. Escrita a lápis em folha lisa verde.
Caxias, 7 de outubro de 2008
Carlinhos,
Quanta chateação! Você promete, heim?
Eta rapazinho. Veio a minha casa, diz que não mexeu em nada (será?), e no entanto meteu o nariz em tudo. Sua mãe sabe que não gosto disso. Espionagem de pirralho. Só de pensar fico irritada.
Meu hobby, o mosaico, que você diz ser aqueles pedacinhos coloridos, são a minha vida. Podem até parecer pedacinhos, mas são fruto de muito garimpo, muita procura e dedicação. Foram anos, mais do que você tem agora e não posso dividi-los. Também não tenho vocação para professora. Cresce primeiro, depois quem sabe, aparece. E por favor, para de meter o nariz onde não é chamado. É muito feio.
Ah! Da próxima vez que você escrever para alguém, procure caprichar mais. Existem regras, sabia? Pergunte a sua professora.
Crie juízo e me deixe em paz. Tempo é coisa que muito me falta.
Dona Angela
Obs. Resposta impressa.
Dona Angela,
Hoje eu estou aqui na minha casa.
Que gastura a sua carta me deu!
Escrever é mesmo uma coisa emocionante e isso é o que eu mais gosto de fazer: ler e escrever. Acho que a senhora não entendeu isso porque não tem filhos, né?(não é?)
A coisa que eu não entendi, mas vou aprender, é essa coisa do hobby, que é a sua vida e tal...
(corrige)
Minha professora , quando pode, me ajuda com as cartas. Ela corrije e também lê as que eu recebo.
Quando eu crescer, vou escrever até poemas de amor.
Até logo,
Carlinhos
Obs. Escrita a lápis em bloco simples ,pequeno, pautado.
Carlinhos,
Vivemos em mundos diferentes, falamos outra língua.
Lamento.
D. Angela
Obs. Resposta em pequeno cartão fechado com adesivo de estrela colorido.
Dona Angela,
Qual a língua que a senhora fala?
Eu entendo tudo direitinho que a senhora escreve. Acho que a senhora não me entende porque eu ainda tô na 4ª série e erro muito. De ler eu sou bom. Já fui até no jardim zoológico com meninos e meninas de outras turmas que também ganharam premio de leitura.
Se for inglês, eu já ouvi e até sei falar (+) e escrever (-).
Good bye,
Carlinhos,
VIRE ------ Gostei do adesivo
Gostou do meu?
Obs. Escrita em folha pautada, simples com envelope artesanal e velho.
Fechado com adesivo de motivo bicho estranho.
Caxias, 16 de novembro de 2008
Carlinhos,
Gostaria de lhe mandar uma folha em branco. Significaria muito mais. Depois de ter sido tão lacônica e objetiva, você insiste na sua infantilidade, um tanto fora de tempo, que a mim mais parece imbecilidade.
Infelizmente minha formação não o permite. Desde os primeiros bancos escolares na Suiça, no College em Cambridge e finalmente em Harvard, jamais deixei uma correspondência sem resposta.
Já ouviu falar em metáfora, Carlinhos?
Certamente, uma vez que foi laureado em leitura, por competência ou assiduidade, não sei.
Mesmo assim você não entende nada, nunca. Age de maneira cada vez mais intrometida e desagradável.
Despedi sua mãe para que toda essa amolação e chatice termine.
Você foi a causa Carlinhos, peça desculpa a ela.
Estarei fora por um bom tempo, e assim nossos mundos alem de diferentes estarão distantes também. E levarei os cachorros.
Aprenda, leia, cresça Carlinhos, e mesmo lamentando, deixo meu novo endereço ( em anexo ).
Adeus,
d. Angela
Obs. Impressa em papel vegetal transparente e em anexo, fotodo “Lainston House Hotel”
D. Angela,
UAU! Essa carta foi demais.
Primeiro, porque veio com um monte de palavras em inglês, até o endereço. Mostrei pros meus colegas .
Segundo , esse castelo prá onde a senhora vai, me lembrou aquele da casa da Cinderela, com as irmãs e a madrasta. Pode ser também o da Branca de Neve, mas que tem madrasta, tem. Conhece o daquela outra (não lembro o nome) que adorava cachorros só pra tirar a pele? Essa história eu só conheço de filme. As outras duas eu li. escreveu
Adorei também (terceiro), porque a senhora falou, para eu “aprender, ler e crescer”. Achei que isso é porque a senhora tá querendo conhecer os poemas que eu disse que vou fazer. Então, resolvi mostrar um que eu fiz quando tinha 9 anos. Foi prá Gabriela, da outra turma, mas não deu prá mostrar prá ela não.
É assim:
Menina escondida,
Eu sonho colorido,
Com o vermelho,
Do seu vestido.
Gostou?
Carlos Alberto