A Letra Falante apresenta:

CEP FANTASIA

Tema: Cartas de João e Joaquim

Autoras: Mariucha Rocha e Beatriz Moura

Personagens:

  • João (Mariucha Rocha)
  • Joaquim(Filomena Sillman)
Jõao em 24-10-2007

24-10-2007

Moço,

Eu queria pedir prá você me ajudar. Eu vou contar por que. Gosto muito de ver os passarinhos que passam perto da minha janela. Sabe, a minha casa tem uma varanda bem grande que dá prá ver o morro cheio de verdes. Tem até passarinhos verdes que voam juntos e gritam muito. Minha avó diz que são as maritacas. Tem uns, amarelinhos, que gostam de visitar as plantas dela e tem também os azuis quase pretos de bico comprido que vem beijar as flores. Eu quando acordo e ainda estou com preguiça, gosto de ficar olhando prá eles. Só depois é que eu vou me arrumar e tomar café. Mas olha, eu não ando com muita vontade de comer não. É que eu vi, de longe, que tem duas gaiolas com passarinhos (acho que são verdes também), na sua casa. Dá pra soltar eles?

Sabe, o meu nome é João,

Obrigado

Joaquim em 13-12-2007

13-12-2007

Estimado João:

Recebi sua carta, ontem, terça-feira e por coincidência na hora dos primeiros pingos de chuva.

Procurei um lugar acolhedor, li e re-li a carta.

Fiquei sensibilizado com tanta ternura que tens pelos pássaros, e surpreso por sermos vizinhos.

Lamento quanto as gaiolas que tanto você se refere, mas os pássaros que tenho foram criados em cativeiro, se soltá-los poderão morrer de fome ou de sede.

Você tem toda razão: os pássaros nasceram para voar e nos encantar com lindas melodias.

Quanto ao meu procedimento, prometo que não comprarei mais pássaros.

Os meus estão saudáveis, tomam banho diariamente, em piscina apropriada, à noite guardo as gaiolas dentro de casa e estão bem alimentados. Por falar em alimentação, você também precisa dela.

Espero que ao receber esta carta, tenhas se recuperado da melancolia.

Cuide-se: os pássaros precisam do seu grito guerreiro, torço pra você vencer essa batalha.

A vida continua. Estou contigo.

Um forte abraço,

Joaquim

João em 19-02-2008

19-02-2008

Seu Joaquim,

Que bom que o senhor me respondeu!

Minha avó tinha me dado uma bronca por eu ter mandado a carta e eu fiquei com medo.

Assim, serviu para eu aprender que tem bichos que ficam em cativeiro e podem ser bem cuidados. Mas eu fiquei com uma dúvida. Como é que esses passarinhos começaram a nascer nas gaiolas, fora da natureza? Isso eu ainda não entendi.

Eu sei que sou muito perguntador. É por natureza também, diz a minha avó. Eu até perguntei pra ela o que era melancolia e ela falou que não estava com vontade de explicar e que estava ocupada fazendo um bolo que eu adoro.

De vez em quando eu dou uma olhadinha prá ver se vejo o senhor perto das gaiolas. É de manha que o senhor cuida deles?

Viu como eu sou curioso? É melhor eu já pedir desculpas do que riscar o que escrevi.

Até logo,

João

Joaquim em 26-02-2008
Rio, 26-02-2008 Estimado João:

Não esperava que você fosse escrever outra carta pra mim.

Fiquei feliz, principalmente porque você memorizou meu nome.

Vou tentar tirar as suas dúvidas, vamos por etapas:

.Os caçadores de aves vão nas florestas preparam as armadilhas e aguardam os pássaros que vem em busca de alimentos. (...)

(...) Esses filhotes são vendidos em lojas, feiras livres e por ai. Os meus, por exemplo, são filhos de um casal de cativeiro.

.Melancolia é um sentimento de tristeza.

.Costumo fazer a higiene das gaiolas às sete horas, um dia desse vou assoviar para lhe dar um tchau. Mas, a essas horas você já levantou da cama?

.Se não fosse a curiosidade dos cientistas o que seria de nós sem as vacinas, remédios, ...

Será que vou acertar? O bolo era de chocolate.

Pensando bem sua avó teve razão, sou uma pessoa estranha pra sua família. Esta que acabei de ler, ela ficou sabendo?

Procure contar primeiro pra ela o que passar no fundo do seu coração, e o que ficou resolvido em comum que se realize.

Um forte abraço,

Joaquim

P.S. Você não me contou a sua idade.

João em 13-03-2008

Dia 13 de março

Seu Joaquim,

Oi.

Eu sou muito bom de guardar as coisas. Eu não ia esquecer o seu nome até porque, como eu já contei, minha avó ainda fala muito porque ela não te conhece e eu fico escrevendo.

Tem duas coisas: Uma, ela fica achando que pode acontecer alguma coisa comigo(é sempre assim) e, duas, eu adoro escrever, estou sempre deixando bilhetes pra ela.

Eu ainda não falei, mas eu moro mesmo é com minha mãe e meu pai e não é todo dia que estou aqui. Minha mãe trabalha muito e quando eu fico com saudades (porque eu durmo cedo) eu também escrevo bilhetes pra ela. Acho que ela gosta e me responde escrevendo também. Quando ela tem tempo a gente conversa, falando. No fim de semana ela gosta de sair com meu pai de noite e de manhã acorda tarde.

Isto tudo que eu to falando, quer dizer, escrevendo, não é o negócio da melancolia, não! É só pra contar mesmo.

Outra coisa, o bolo que minha vó faz e eu prefiro é o de chocolate mesmo. Você também gosta? Minha mãe tem mania de fazer bolo de cenoura. Eu até como.

Eu vou fazer nove anos e já posso fazer muita coisa. Estou começando a ir pra escola de condução. É divertido.

Nos feriados você também acorda às sete horas? É que nesses dias, muitas vezes, eu fico com minha avó e meu avô porque (eu já contei) meus pais gostam de sair. Quando eu dormir aqui de novo eu vou acordar a vovó para ela dar tchau pra você também.

Mora mais alguém com você?

Xiii... já to eu perguntando.

Até logo,

João

Joaquim 01-04-2008

Rio, 01-04-2008

João:

Sua carta me deu uma imensa alegria.

Ela me fez recordar quando ao completar nove anos, ganhei uma blusa verde de minha mãe, feita por ela, nesse dia eu me senti um príncipe andando por seu castelo. Por acaso você algum dia se sentiu assim?

Parabéns! Com os seus bilhetes você vai se aprimorando e quem sabe poderá se tornar um grande escritor.

Lembro que na sua idade não tinha o seu desembaraço, mas gostava de brincar de professor.

Por falar em escritor, você ouviu falar ou conhece a escritora Lygia Bojunga?

No dia 27 de março eu e umas amigas fomos visitar a casa de campo dela. É um pouco distante da cidade. Ela nos ofereceu um lanche, também tinha bolo de cenoura, suco de manga , água, biscoito...

Sei, pelos meus netos, que passeios de adultos são chatos, talvez por isso que seus pais deixavam você com seus avós.

Olha, quando jovem dormia profundamente, hoje meu sono é leve. Às seis horas estou fora da cama, mas às 21:00hs estou debaixo dos lençóis.

Não moro sozinho.

Qualquer dia, vou levar para você e seus avós conhecerem o Fred e a Margarida, são duas calopcitas, fêmeas.

Um forte abraço.

Joaquim

P.S. Hoje, acreditei numa mentira, esqueci que era primeiro de abril.