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Resenhas da Obra de Lygia Bojunga

Tchau

Tchau (1984)
Ilustração da capa: Edvard Munch
Casa Lygia Bojunga, 2003
127p.

Perspectivas

Emilia Machado e Tatiana Kauss

Olhar o mar e o horizonte que se abre generosamente ajuda a ampliar a perspectiva da vida. O livro de contos Tchau traz uma experiência similar quando nos propõe questões difíceis e deixa espaço para a solução. Por isso, esse livro publicado em 1984 pela primeira vez, ainda hoje, após dezessete edições, mantém o frescor e o interesse de seus temas. Nesses contos há núcleos de questões que são trabalhados pela autora em outras obras. Por exemplo: o ciúme, do conto “A troca e a tarefa”, é o mote de Querida, recente lançamento da autora; a perda de um amigo, do conto “Lá no mar”, é um dos assuntos de O meu amigo pintor. Já a fragmentação familiar de “Tchau”, abordada como um fato social, antecipa uma realidade que só agora é reconhecida.

São quatro contos independentes, embora o mar seja um elemento presente em todos eles. Parece que da imensidão das águas e do seu movimento, que ora nos traz curiosidades de outras terras, ora nos arrasta com fúria, há paralelos constantes com a nossa existência, especialmente com a sensação de esvaziamento que a solidão pode nos dar. Com isso, a autora cria cenas antológicas, como a da menina que começa a escutar os planos de partida de sua mãe enquanto constrói castelos de areia na beira do mar, que teima em derrubá-los.

Lygia é uma escritora com grande capacidade de entender e retratar os mais diversos tipos de gente e de situações. Essa matéria-prima é transformada numa ficção de linguagem fluente, o que dá às narrativas uma preciosa naturalidade, mesmo quando a proposta é fantástica, como no caso do conto “A troca e a tarefa”. “Lá no mar” humaniza o barco, personagem principal; “Tchau” aborda problemas da ruptura familiar com traços bastante realistas, e “O bife e a pipoca” abre discussão sobre as nossas cidades partidas em favelas e bairros e a relação entre eles.

Em “Tchau”, sente-se na carne a angústia da mulher que enfrenta um tédio terrível na rotina de sua vida com o marido e deseja ardorosamente se entregar a uma paixão, e a da filha pequena que se vê deixada e destituída de seu núcleo familiar. É um conto simples, construído com verossimilhança, que produz no leitor sentimentos fortes, como se ele estivesse presenciando cenas reais.

O enredo de “O Bife e a Pipoca” pode até parecer banal. Nele há Rodrigo, um menino de classe média, Tuca, um novo colega, bolsista e morador de favela, e a conflitante relação entre eles. O desenrolar dos fatos absorve o leitor como um redemoinho e a energia da linguagem coloquial é indispensável para que se possa entender o clima psicológico que envolve a história.

Um sonho azul. O mar presente. Duas janelas numa parede. “A troca e a tarefa” é um conto que se lê de uma vez, assim quase morrendo porque se esquece de respirar. Com intensidade, Lygia Bojunga escreve sobre ciúmes, rejeição, vontade de morrer, paixão platônica, solidão, transformação através da Escrita, e por fim, a morte na ponta do lápis. Um conto cheio de desejos, vontades e sentimentos, “A troca e a tarefa” é instigante do início ao fim.

“Lá no mar” mostra a amizade entre o Barco e o Pescador. Navegam sempre juntos. Um gosta de ouvir e o outro, de contar: histórias de pescador. Em mares turbulentos, encaram a morte. Depois, a calmaria traz ondas de solidão, tristeza e saudade. Até que o sol brilha mais forte e a esperança, em forma de menino, muda a maré para um tempo de recomeços. “Lá no mar” é um conto que angustia e liberta.

O livro Tchau ganhou nova capa ao ser publicado pela Editora Casa Lygia Bojunga, em 2003. Ao escolher para ela uma reprodução do quadro A solitária, de Edvard Munch, a autora pode ter pretendido revelar um sentimento que permeia os quatro contos: a solidão. A imagem é marcante e, ao livro, o difícil é dizer tchau!

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