A Letra Falante apresenta:
A voz do índio
Ninfa Parreiras
Nossa literatura brasileira para a infância e a juventude tem muitas de suas raízes na oralidade. Nas cantigas, nas lengalengas, nas fábulas, nas lendas, nos mitos... Não muito diferente da literatura proveniente da Europa Ocidental, bebeu na fonte dos contos populares. Lá, nos contos de fadas; aqui, nos contos folclóricos constituídos pelos diferentes povos que viveram e aportaram no nosso território com suas culturas. Assim, o folclore é uma de suas fontes, seja pelos personagens, seja pela linguagem popular das narrativas, seja pelos conteúdos de muitas histórias contadas, por exemplo, por Monteiro Lobato, que é considerado o patrono da Literatura Infantil brasileira.
Na década de noventa, os indígenas brasileiros começaram a relatar, publicar e divulgar seus contos. E assinar os seus livros. Em 1995, Daniel Munduruku publica Histórias de índio, pela Companhia das Letrinhas, um marco para a literatura infantil brasileira e para os autores indígenas: a transposição da oralidade para a publicação escrita.
A produção de autoria indígena é absolutamente nova, em processo de consolidação. Os autores estão vivos, criando e construindo o que podemos chamar de Literatura Indígena. Eles têm se reunido há alguns anos num seminário anual, em parceria com a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, para discutir as suas obras, os espaços e as dificuldades encontradas pelos autores na publicação e divulgação de suas vivências e crenças. São narrativas escutadas e transmitidas de geração para geração, de avô para neto, de pai para filho...
Em 1980, foi publicado o primeiro livro brasileiro totalmente escrito e ilustrado por autores indígenas, da Livraria Cultura Editora, de São Paulo. A obra, apresentada pela antropóloga Berta G. Ribeiro, Antes o mundo não existia, é de autoria de Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri. Traz, em língua desâna e em português, a história da criação do mundo segundo a mitologia do povo desâna, do Alto do Rio Negro, na região Amazônica.
Lamentavelmente, muitas pessoas da nossa geração conheceram o indígena pelos livros didáticos, como um ser selvagem, preguiçoso, afeito à pesca e ao cultivo da mandioca e que se rebelou contra a escravatura. E o que mais?
Com os estudos de antropólogos e historiadores, tomamos contato com culturas diversas, com tipos físicos diferentes, com falas incomuns... Hoje bastante reduzidos, os povos indígenas brasileiros, alguns moradores de áreas urbanas, outros de aldeias rurais, encontraram um caminho para divulgar suas memórias. Há dezenas de escritores e alguns ilustradores nativos que têm publicado para o público infantil e juvenil.
A discussão sobre esta produção ainda carece de estudos e de pesquisas. Seria literatura? Ou obras de valor didático? Seriam recontos? Diante de tantos livros que têm sido editados, podemos identificar algumas linhas de criação. Há os livros de caráter informativo, que trazem curiosidades e esclarecimentos sobre o povo indígena. Há os recontos que trazem histórias de autoria desconhecida, que envolvem personagens do nosso folclore: o Saci Pererê, por exemplo. Há as recriações de histórias. E ainda há criações livres em prosa.
A grande importância da edição dessas obras é a expressão das diferentes culturas indígenas, criadas por autores nativos. É a voz e o olhar do índio que ganharam relevo. E nós ganhamos com isso: estudiosos, pais, professores, crianças e jovens.
A produção de Daniel Munduruku (recontos do povo Munduruku e de outras culturas indígenas, livros informativos, textos memorialistas/autobiográficos, criações, expressões pessoais) tem se destacado na produção nacional. Juntamente com ele estão: Yaguaré Yamã, Olívio Jekupé, Kaká Werá Jekupé e muitos outros reunidos no Pequeno Catálogo Literário de Obras de Autores Indígenas, publicado pela editora Global em 2008. A publicação desse catálogo nos leva a crer que agora é a voz do índio que conta as histórias para as crianças e os jovens. E que há um ineditismo nessa produção de autoria indígena, não só no Brasil, como também em países da América Latina.
Desde 2007, o grupo Letra Falante tem lido, estudado e pesquisado a produção de livros de autoria indígena e de obras de autores não indígenas que recontam as histórias da oralidade brasileira. Além disso, encontrou-se com o autor Daniel Munduruku, na Estação das Letras, o que rendeu os frutos que agora podemos compartilhar: as 20 resenhas de livros de autoria indígena e uma resenha do autor Elias José, com recontos de histórias indígenas.
Para a edição da nossa produção, contamos com a colaboração de:
- Barbara Andersen (revisão da bibliografia)
- Vânia Salek (revisão de textos, com o novo acordo ortográfico)
Obras de Caráter Informativo

Histórias de índio
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Laurabeatriz
Editora: Companhia das Letrinhas, SP
Ano: 2002
Nº de páginas: 71
Emilia Machado
De cabeça e coração abertos
Esta é uma obra de referência sobre a cultura indígena para crianças, jovens e adultos.
Um primoroso trabalho de Daniel, que assume a obra da introdução ao glossário, e nos orienta no percurso de suas bem escritas histórias. Imagino que, dentro ou fora do Brasil e da realidade indígena, qualquer pessoa se sentirá envolvida pelos seus relatos.
Com muito equilíbrio, o livro se distribui em um corpo com dados informativos sobre os índios do Brasil, algumas crônicas e narrativas verídicas, e um conto inicial sobre a preparação de um menino de uma aldeia Munduruku para ser o futuro líder da tribo. Essa divisão é bem explicada pelo próprio autor, e a justificativa está no desejo de bom proveito, expresso por ele logo na introdução.
O conto de abertura funciona como uma sensibilização para as crônicas e depoimentos que virão a seguir. Os conflitos contemporâneos vividos pelos indígenas são expostos como um machucado em carne viva que, aberto, aguarda o curativo. Ao lê-lo, caímos na conta de que antes de pensar o assunto temos que senti-lo. E as crianças, em processo de formação crítica e livres dos estereótipos, são o público que melhor ouvido tem para isso.
Escrito em prosa bem cadenciada, este conto utiliza a linguagem simbólica e muito poética da mística, como na cena do Pajé que identifica no recém-nascido aquele que será o próximo líder da tribo (pg. 12). Esse relato se aproxima, por exemplo, do belo discurso de Simeão, no Evangelho de Lucas (Lc2, 29-33), quando reconhece o messianismo do menino Jesus, assim que o vê no colo de sua mãe. Falamos de uma identidade que se dá através da experiência fundante de uma revelação – um reconhecimento, uma luz, uma voz de Ordem, etc., que vem do “alto”, do “além”, de alhures, para afiançar uma origem. Em ambos, assim como no decorrer da história da humanidade, a identidade de cada povo se constitui na vivência de suas crenças e tradições. Ao findar o conto estamos abertos à questão ali colocada: a condução dos povos indígenas rumo ao futuro e à sua sobrevivência.
A parte das crônicas é deliciosa e de um bom humor contagiante. Como está explicado pelo autor na introdução, através desses depoimentos ele questiona a visão que temos do índio que chega à nossa cidade, e também a visão do índio sobre a cidade onde vivemos. É uma oportunidade para boas risadas com a criançada.
A última parte do livro é dedicada a dados informativos sobre aspectos da realidade indígena no Brasil. Foram escolhidos pontos suficientes para um conhecimento básico que devemos ter sobre a nossa população aborígene. São colocadas informações que vêm de encontro com as questões mais primárias que temos a respeito do assunto. Por isso, é aprazível lê-la. Daniel mostra o rigor da pesquisa feita para a elaboração desse capítulo, ao lançar mão de excertos de autores consagrados no estudo indianista, como Betty Mindlin e Julio César Melatti, e pela ampla bibliografia utilizada.
A produção gráfica é bonita, as ilustrações de Laurabeatriz estão impressas em papel couché e valorizadas na diagramação, embora o texto em duas colunas não seja o mais recomendável para os pequenos leitores. O livro todo está muito bem cuidado e isto só aumenta o prazer de lê-lo.

Coisas de Índio
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: vários
Editora: Callis
ISBN: 8574160849
Ano: 2000
Nº de páginas: 96
Formato: 21 x 29

Coisas de Índio
- versão infantil
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: vários
Editora: Callis
ISBN: 8574161918
Ano: 2003
Nº de páginas: 56
Formato: 21 x 26
Regina Salamonde
Enciclopedinha do Índio
Quando Daniel Munduruku escreveu Coisas de Índio realizou um sonho há muito acalentado, eis que queria oferecer ao leitor, verdadeiramente, uma enciclopedinha que servisse como material didático àqueles que quisessem conhecer um pouco mais sobre os povos indígenas do Brasil. Seria um “guia de pesquisa”, como declara na guarda. No seu entender, a obra atinge muito pouco da riqueza e sabedoria das culturas nativas e, por isto, sugere e convida a criança e o jovem para pesquisarem esta realidade tão rica e perceberem como é importante para o Brasil conviver com esta população, também brasileira.
Assim, sempre com o objetivo de informar, o autor divide a obra em duas partes: na primeira, introduz a temática indígena de modo geral ao abordar tópicos como: quem são e onde estão os principais povos, aliás, com mapa muito claro da ocupação das nações no território brasileiro (p.17); de onde vieram os povos nativos, com outro mapa elucidativo (p.19); qual a língua de cada tronco e família em rico detalhamento, disposto em quadro sinótico de seis páginas (p. 22 a 27), onde destaca também os vários dialetos existentes; encerra-a com os artigos da nossa Carta Magna que versam sobre os “Direitos dos Índios”. (C.F.arts. 231 e 232).
Na segunda parte, o autor passa a esclarecer aspectos específicos da cultura indígena, sempre mantendo aquele cunho didático que se propôs tomar. Todavia, a leitura se torna agradável para qualquer leitor porque, ao mesmo tempo, que se ouve Daniel discorrer sobre os assuntos de uma maneira simples e coloquial, como se tivesse nos contando pequenas histórias, vemos o texto, ladeado por singelas ilustrações, que o vão explicando. Como verbetes de uma enciclopédia, ele ensina ao leitor com detalhamento o que é uma aldeia, como podem estar as casas aí dispostas, em que consiste a alimentação destes povos, o que representam o casamento, a chefia e a morte para os nativos; como se dá a educação das crianças, o que são ritos de passagem; os significados de “economia”, “tecnologia” e “trabalho” para o indígena. Pajé ou xamanismo? A importância da cultura e arte indígenas; o papel que a música e a dança ocupam nesta cultura; a terra e o índio, uma coisa só; o conhecimento e a preservação da natureza com suas inserções na medicina.
É neste capítulo que Daniel nos conta da profunda ligação entre o índio e a mãe-terra, pois sabem que seus recursos são a garantia de seu sustento. “Infelizmente, os interesses econômicos da sociedade brasileira estão ameaçando a sobrevivência das populações indígenas” (...) “a terra é sagrada e tudo o que for feito a ela hoje atingirá todas as pessoas do planeta, mais cedo ou mais tarde.” Todas essas declarações mostram o pensamento do “ser-índio”, tão diferente do “não-índio”, atual e comum na sociedade brasileira, quando se pensa no descaso, cobiça e irresponsabilidade da ganância econômica de nossos tempos que, sem nenhum escrúpulo, desmatam e espoliam ricas florestas milenares, importantes para a sobrevivência e equilíbrio do meio-ambiente do planeta.
Aliás, é oportuno mencionar, neste ponto desta resenha das coisas de índio, que é justamente por esta oposição binária a partir de contrastes que o grande antropólogo Claude Lévy-Strauss (com 100 anos no dia 28 de novembro de 2008) criou o estruturalismo, onda intelectual que influenciou, na segunda metade do século XX, todo o campo das ciências humanas. Esta data, festivamente comemorada na Europa, no nosso país, é centenário especial, uma vez que foi em contato com os índios do Brasil, em expedições no ano de 1930, que Lévy-Strauss teve seu primeiro contato direto com o que chamaria depois de pensamento selvagem. Segundo ele, para compreender o pensamento dos humanos, é preciso compreender a forma como eles utilizam estas oposições para criar uma representação do mundo. Lévy-Strauss esteve entre os bororos e os kadiwéus em 1936 e entre os nambiquaras em 1938. Lévy-Straus coaduna com a posição de Daniel Munduruku quando declara que nos tornamos consumidores bulímicos da riqueza, com uma relação altamente destruidora com o ambiente. (Prosa e Verso, in O Globo, 15/11/2008, p. 06).
Com 96 páginas, em papel grosso, Coisas de Índio apresenta uma ilustração ao pé do texto no esforço de vários ilustradores, como se pode notar no crédito das imagens: o próprio Daniel traz sua pena na execução de desenhos informativos da disposição das aldeias. Os motivos geométricos das interpretações da natureza e da cultura indígena, a partir do modo de ver xavante, são executados por Siridiwê Xavante. Ainda há a colaboração de Ionite Zilberman e Yaguaré Saterê que trazem outras imagens elucidativas e coloridas, num naipe variado de técnicas da ilustração.
É, portanto, uma obra que cumpre a sua finalidade, pois atendendo ao seu objetivo, instiga o leitor a querer saber mais deste ser que é também brasileiro, mas que fala outra língua, pensa de modo diferente, vive em outro ambiente, tem outros valores e é outro cidadão.
Porém, o sonho de Daniel não parou por aí.
Em 2003, ele nos brinda com a versão infantil pela Callis Editora, com 56 paginas. Em seu “recado do autor” (p. 6 a 9), Daniel nos expõe os dois objetivos da obra:
~ cumprir a promessa que fizera a seu avô “de oferecer aos estudantes de todo o Brasil um material atualizado sobre os povos indígenas que habitam esta nossa terra”.
~ fazer com que a leitura do livro ensine ao pequeno leitor que as pessoas são diferentes e possuem vidas e modo de viver, também, diversos. O importante é conhecê-las e respeitá-las, para que um possa ser mais tolerante com as diferenças do outro.
Ao realizar um estudo comparativo entre as duas obras e ao cotejar os tópicos dos sumários, percebemos que Daniel manteve em ambas quase que os mesmos assuntos listados em ordem alfabética. Há uma pequena alteração na disposição da apresentação daqueles, talvez para adaptar esta leitura informativa ao leitor infantil.
Sempre dentro deste cotejamento mencionado, vamos constatar que Daniel emprega um só texto que sofre redução de conteúdo na versão infantil. São as mesmas informações, repetidas numa também forma coloquial de linguagem simples em narrativa de conto.
Deparamos, outrossim, com uma atualização de dados da primeira “enciclopédia” para esta infantil de 2003. Por exemplo: Daniel nos diz 215 povos, na p.14 da 1å obra, e nos traz 230, na p. 11 da 2å. Outro: 315 mil índios (p.15 da 1å) que estão em 24 estados brasileiros. Na p. 11 da 2å, são 750 mil (350 mil nas aldeias e 400 mil fora delas).
Os mapas apresentados na p.17 do primeiro livro e p.12 do segundo são os mesmos, porém os povos cotados nos estados têm números diferentes: Amazonas tinha 48, e, em obra de 2003, 65 povos. O fato se repete em outros estados.
Daniel conta historias de índio: das cinco narradas no primeiro volume, apenas duas o são no segundo, no capitulo “Historias”, p. 33. “Um mito tupi-mandioca - o pão indígena, p. 37, O mito das flautas sagradas munduruku”, p. 60 e um “Relato da atuação de um pajé munduruku” p. 92 não são relatadas.
Em “Direitos dos índios” (p. 30 da 1å obra), percebemos um abrandamento do texto da p. 28 da segunda. Parece-nos que Daniel quis poupar o leitor infantil, ao retirar os artigos da nossa Constituição.
Notamos, também, que o autor suprimiu dois capítulos, abordados no primeiro trabalho. Não encontramos “Tecnologia”, p. 83 e “Xamanismo”, p. 90, no sumário da segunda obra de 2003.
Como acontece com o primeiro trabalho resenhado, é também um exemplar muito agradável que tem um bom formato, papel grosso, colorido e levando ilustração de Camila Mesquita. Os capítulos apresentam-se elucidativos do texto em representações com desenhos coloridos ou não, ora ajudando a informação ao pé do texto, ora sugerindo a realidade indígena numa assimilação criativa do leitor.
Houve esforço dos mesmos citados acima na ilustração desta segunda obra. A capa é do punho de Daniel Munduruku.
Sem dúvida, ambas as obras nos informam acerca das realidade e cultura indígenas e nos fazem querer ser parte da teia...
Aliás, era esta a intenção do autor como já vimos!
Diz ele, ao final da p. 10 deste segundo volume “se a leitura deste livro cumprir este papel, então eu terei ajudado vocês a entrar no mundo das COISAS DE ÍNDIO”.

O livro das árvores
Texto: Índios Ticuna
Ilustração: Índios Ticuna
Editora: Global
ISBN: 8526006169
Ano: 2006
Nº de páginas: 96
Formato: 21,5 x 24
Mariucha Rocha
Um Viva à Natureza
Em tempos de discussão sobre o desmatamento da floresta amazônica, em que organizações nacionais e internacionais trocam acusações sobre a responsabilidade pelo descaso político em relação ao meio ambiente, o movimento da população indígena Ticuna nos dá um exemplo importante, ao investir na manutenção de sua cultura e lutar pela preservação ambiental em seu meio. No cerne dessas duas situações está a questão da posse e do uso da terra em nosso país.
Com propósitos pedagógicos, através de seus professores bilíngues, o povo Ticuna organiza um projeto em educação ambiental e publica o Livro das Árvores.
O livro resultante tem um projeto gráfico belíssimo, impresso em papel couché a quatro cores, com ilustrações ingênuas e ricas, em traços característicos de espontaneidade.
Como destaque entre tantas, temos, na página 15, a beleza da transformação dos troncos de uma samaumeira em rios que correm pela floresta e, na página 23, o desenho em espelho, de paisagem refletida nas águas do rio. Sem preocupação com proporções, algumas ilustrações revelam a força das árvores ao mostrar o interrelacionamento de animais com seus troncos e folhas. Os desenhos, em sua maioria, são produções individuais, enquanto os textos resultam de um trabalho coletivo.
Em 1997, a obra mereceu o prêmio da FNLIJ como melhor livro informativo e melhor projeto editorial. Hoje, sua importância cresce junto aos leitores.
Suas breves histórias relatam a importância das árvores na formação de sua cultura. Os textos são poéticos (A floresta é a coberta da terra), são informativos (Algumas árvores são próprias da terra firme... outras nascem na várzea...), contam sobre a criação do mundo, a origem das pessoas e dos clãs, relacionando-os às árvores e aos animais. Contam lendas conhecidas, como a do Curupira, descrevendo-o como o pai da samaumeira ou o dono do jabuti. Lendas menos difundidas, como a do Mapinguari, do Daiyae, do Beru, que ”é a mãe do macambo, ngu...” Descrevem a relação das árvores com os animais como sua morada, sua comida, sua vida. A árvore hospedeira, que abriga plantas diversas como o cipó, o maracujá, a erva de passarinho. A árvore e os remédios. As frutas e sementes. Toda a riqueza da natureza.
Na última história, sobre o Buriti, dizem: “(...) Fazem parte da nossa vida, da nossa cultura. As pessoas estranhas, que vêm de fora, não entendem esses significados. Entram na mata e destroem tudo. As árvores, a floresta, não têm sentido para elas. Têm apenas o sentido do lucro que a madeira pode dar.”

A palavra do Grande Chefe
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Maurício Negro
Editora: Global
ISBN: 9788526012967
Ano: 2008
Nº de páginas: 32
Formato: 23 x 26
Beatriz Soares de Moura
Trata-se de uma adaptação livre, poética e ilustrada do discurso do Chefe Seattle. Esse famoso pronunciamento veio a público somente em 1887, na versão do médico e especialista em línguas indígenas, Henry Smith. Foi posteriormente publicado no jornal Seattle Star, e várias outras versões sucederam-se exaustivamente ao longo de décadas.
As ilustrações ganham grande destaque nas mãos de Mauricio Negro.
A Palavra do Grande Chefe retrata o encantamento de Daniel Munduruku pelo conhecido discurso do Chefe Seattle.
Daniel Munduruku, um escritor de origem indígena, nasceu e se criou em Belém, tendo se mudado posteriormente para Manaus e São Paulo, onde completou seus estudos.
A obra realmente sensibiliza. É uma ode de respeito à natureza e ao caráter da nação indígena. Uma visão de como um lugar preservado, intocado, pode ser transformado ao cair nas mãos consumistas do homem branco.
O discurso se opõe à proposta de troca do habitat natural do povo indígena por uma reserva pré-determinada e limitada. Troca essa que nada mais é do que uma compra documentada e comprovada por títulos, papéis e moeda.
Coisas que pouco ou nada significam para a nação indígena, pois os nativos comem o que caçam e pescam, vestem-se de pinturas sobre o corpo, extraídas de pigmentos de frutos ou folhas, além de usarem a pele de animais mortos naturalmente ou abatidos para consumo.
Temem pelo olhar de ganância, pelo olhar descrente do homem branco para um lugar sagrado e gratuitamente oferecido pela Mãe Terra. Lugar esse no qual colocaram todo zelo, carinho e constante cuidado em sua preservação.
Chefe Seattle usa um linguajar calmo e emocionado, mostrando uma personalidade forte, certeza de seus pontos de vista, crença absoluta em seus princípios.
Emociona também no respeito à natureza e a seus pares, quando dispensa documentos e dinheiro, e especialmente na valorização da vida humana e da mãe terra.
A palavra é sua honra, e isto lhe basta.
Daniel Munduruku entremeia o discurso com observações próprias, sempre mostrando total apoio e encantamento.
O livro é magistralmente ilustrado por Mauricio Negro, em técnica mista, de grande impacto. O artista mostra uma força de linguagem, numa multiplicidade de materiais, sem uma poética rígida, mas com abundância de brilhantismo e beleza de total deslumbramento.
Como um todo, é uma obra visualmente maravilhosa e um alento para o coração.

Pequeno catálogo literário de obras de autores indígenas
Coordenação: Daniel Munduruku
Ilustração: Justino Tuyuka
Editora: Global
Ano: 2008
N° de páginas: 36
Formato: 21 x 21
Mariucha Rocha
Ideais Indígenas
A publicação de um catálogo de obras de autores indígenas é fruto da aceleração do movimento de resgate de suas tradições culturais e de seus direitos. Pensadores e estudiosos se organizam, saem à frente e criam o que seria um guia orientador da produção literária indígena.
Como introdução ao catálogo, os autores apresentam o relato de suas experiências iniciadas em 2004, no I Encontro Nacional de Escritores Indígenas. Este encontro foi realizado no 6º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro, tendo como tema central “o direito autoral e a proteção dos conhecimentos tradicionais”. Nesse encontro foi criado o Nearin, Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas e, após dois dias de debates, ficou sacramentada, entre outras, a luta contra a classificação de suas histórias como de domínio público. Era a formalização da defesa de suas tradições para a valorização de sua autoestima. Este núcleo de ação está ligado a ONG INBRAPI - Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual, cuja diretoria é composta por atuantes indígenas de diferentes povos, tendo como presidente o escritor Daniel Munduruku.
Em encontros subsequentes do Salão FNLIJ do livro, um dos pontos em discussão foi a “questão do direito à leitura e o acesso à literatura de qualidade nos territórios indígenas bem como a criação de políticas públicas que atendam a esse direito humano inalienável”. Este é, sem dúvida, um ponto que pode ser reivindicado em vários segmentos de nossa sociedade. É uma luta também por melhores condições de educação.
Uma segunda discussão proposta, a de instalação de bibliotecas em aldeias indígenas, é considerada uma “questão espinhosa, já que pode apresentar alguns perigos para suas culturas tradicionais como o embate entre cultura letrada e a tradição oral; o aporte ideológico trazido pelos livros...” Nesse ponto, parece-nos que a aceitação da cultura diferente deve ser recíproca, pois o conhecimento literário precisa ser intercambiado para se atingir a unidade de nação e para haver o reconhecimento do outro.
O Catálogo, criado para expor suas publicações, faz uma classificação, em separado, de livros infantis e juvenis e de obras para o público adulto. As indicações estão apresentadas por autores, na forma tradicional de catálogos editoriais, com suas capas e sinopses. Trechos de alguns livros em temáticas variadas compõem as informações para adultos.
O bonito projeto gráfico é de Mauricio Negro e de Eduardo Okuno. A capa do catálogo é um detalhe de um cocar montado com penas, folhas secas e lápis, numa profusão de cores sugestiva de um sincretismo entre a arte encontrada na natureza e a que podemos criar com nossas mãos.
É uma obra informativa, divulgadora de seus trabalhos e de suas parcerias, com destaque para as editoras Callis e Brinque Book, pelo apoio ao Concurso Tamoios FNLIJ/IMBRAPI, e para a editora Global, que imprimiu o catálogo com produções vinculadas às mais variadas editoras.
Eliane Potiguara, escritora e educadora indígena, escreve o que seria o posfácio do catálogo e observa que “...há de se situar a Literatura Indígena como um instrumento de conscientização, força e libertação.” E conclui “...Contem e criem então!”
Obras de Criação em Prosa e Recontos

Catando piolhos: contando histórias
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Maté
Editora: Brinque-Book
ISBN: 8574121451
Ano: 2006
Nº de páginas: 48
Formato: 21 x 28
Rosane Villela
Nessa Hora o Mundo Para
Nos dias atuais, tão importante quanto ensinar a história indígena em nosso país, é falar dos valores que a sua tradição cultural, na relação com o outro, nos ensina. A história nos aponta os caminhos destas nações desde a colonização e conquista da América, enquanto Daniel Munduruku nos faz refletir sobre os nossos descaminhos.
Com o olhar sensível, que repousa nas suas raízes, o autor de Catando piolhos: contando histórias, em oito relatos, discorre sobre a vida da sua comunidade indígena. Premia suas lembranças na filosofia de vida comunitária para mostrar os valores, os hábitos, os costumes e a tradição de sua nação.
Catar piolhos e contar histórias ao mesmo tempo é apenas uma das várias maneiras de priorizar os relacionamentos e formar o homem. Assim como caçar; sentar ao redor do fogo aceso no centro da casa, para a alimentação do corpo e para as conversas compartilhadas no respeito e na atenção; brincar para aprender; ouvir os ensinamentos do pajé e dos ancestrais. Atos simples e rotineiros que, alimentados pelo amor e transmitidos pelas gerações, têm uma dimensão fundamental: a social, a da formação de um ser comunitário, em seu estar no mundo como indivíduo.
Além de contar histórias e responsabilizar-se pelo registro da vida de sua aldeia, Daniel imprime lições, disfarçadas nos relatos que perpassam a sua obra. Lições de vida, em ritmo lento, como o rio, poético e melodioso, onde a pressa não tem vez e a sabedoria é a voz que comanda. Adota o tom da natureza e deixa, ao leitor, a floração de suas próprias reflexões, provocando-o a uma revisão dos seus conceitos, estagnados pela intolerância e pelo desamor inerentes à sociedade a que pertence. Compartilha o saber da primazia do todo pelo indivíduo e faz este pensar que “(...). É o homem que ensina e a comunidade toda educa”, ao traçar, no próprio indivíduo, a força motriz da sobrevivência dos valores humanos de sua nação.
Com o seu dom de contador de histórias, que muitas vezes se repetem em seus variados livros — numa narrativa que objetiva o aprendizado dos valores e das tradições, pela repetição dos fatos narrados, própria do modus vivendis indígena —, Daniel prende a atenção dos seus leitores pelo apuro sincero de suas palavras que “significam muitas coisas ao mesmo tempo”.
As ilustrações de Maté dialogam com o texto. Faixas de losangos, na horizontal e na vertical, aparecem “baseadas em um motivo da pintura corporal tradicional munduruku”, como ela própria explica. Algumas mostram a natureza, os utensílios usados pelos indígenas, os hábitos e costumes — como a vestimenta e a pintura tatuada que parece barba no rosto da mulher-indígena —, enquanto outras denotam a sua própria interpretação do fato narrado pelo autor. Ilustrações em vibrante colorido.
E o que é sutil, é o que mais encanta: o traçado pequeno dos piolhos que surgem e desaparecem, para surgirem novamente, em toda a obra. Como se acompanhassem as inquietações que Daniel transpõe em forma de histórias. Histórias encantadas que nos fazem respirar um outro tempo e lugar.

Contos indígenas brasileiros
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Rogério Borges
Editora: Global
ISBN: 8526009362
Ano: 2004
Nº de páginas: 64
Formato: 15,5 x 23

Meu lugar no mundo
Texto: Sulami Katy, com Heloisa Prieto e Daniel Munduruku
Ilustração: Fernando Vilela
Editora: Ática
ISBN: 8508091524
Ano: 2004
Nº de páginas: 63
Formato: 20 x 27
Mariucha Rocha
Com a Palavra...
Na década de 1980, os irmãos Cláudio e Orlando Villas Bôas, estudiosos da civilização indígena do Xingu, no Brasil Central, recolheram histórias da tradição oral dessas comunidades e organizaram uma coleção de livros com contos e lendas de sua cultura, que foi publicada pela editora Kuarup. Escrever suas histórias era mais uma forma de chamar a atenção para a existência dos diversos povos e para as condições em que viviam no nosso (seu) país.
Na década de 1990, Daniel Munduruku, que adota o nome de sua etnia, surge como escritor e pensador e começa a desenvolver trabalhos que se tornam reconhecidos no Brasil e no exterior. Passa a produzir textos infantis em conformidade com os meios e códigos indígenas, com o objetivo de, através da escrita, também despertar discussões sobre as condições de vida das diversas populações remanescentes no país.
Em 2004, já com a preocupação de apresentar os povos indígenas situando-os, diferenciando-os e respeitando-os, sem fazer generalizações como era o costume na literatura existente, Daniel escreve o livro Contos indígenas brasileiros, em que organiza mitos de povos distintos, para mostrar suas diferentes crenças e tradições. Esses mitos foram selecionados a partir de critérios lingüísticos, sendo dois deles do tronco Tupi, o mito Munduruku e o Guarani; dois do tronco Macro-Jê, o Kaigang e o Karajá, e quatro outros de famílias lingüísticas isoladas: o Nambikwara, da família Nanambikwara; o Terena, da família Aruak; o Tukano, de família própria, e o Taulipang, da família Karib. São oito povos - oito mitos - em que a figura do velho, do sábio, aparece como o transmissor da história pelo uso da palavra.
A valorização da palavra, tanto na oralidade quanto em sua forma escrita, está poeticamente descrita na apresentação do livro. Para o autor, as palavras evocam os acontecimentos dos primeiros tempos e dão sentido ao nosso estar no mundo.
As ilustrações que compõem o texto são em preto e branco, na linguagem visual simples e precisa de Rogério Borges.
Seguindo os passos de Daniel Munduruku, Sulami Katy, criada numa aldeia potiguara situada no litoral da Paraíba, inicia-se também na literatura com o livro Meu lugar no mundo. Sulami considera a escrita como o grande aprendizado fora de seus costumes e vê o livro como o elo entre os mundos, valorizando, mais uma vez, a percepção da palavra e da leitura.
Nesse livro, a autora descreve sua trajetória entre a aldeia potiguara e a vida na cidade. São 30 anos de sincretismo cultural e social, nos quais sua vivência na aldeia já está mesclada com a educação em escolas públicas de língua portuguesa. Ela observa: “os mais velhos ainda se lembram das histórias contadas por nossos antepassados e dizem assim: ‘Nós éramos muitos, mas conhecíamos pouco, por isso hoje estamos em menor número, mas agora conhecemos muito mais’. “
Para organizar a história, Sulami contou com a colaboração de Heloisa Prieto que, além de escritora com diversos livros publicados e vários prêmios na categoria infantil, é também doutora em literatura pela Universidade de São Paulo e tem, na literatura de tradição oral, a base de sua formação.
Meu lugar no mundo, conta também com a colaboração de Daniel Munduruku, que discorre sobre a identidade indígena no mundo globalizado.
O projeto gráfico, assim como as ilustrações, são de Fernando Vilela, que colheu na Floresta Amazônica a inspiração para os desenhos em técnica de xilogravura. O ilustrador apresenta, na capa e nas guardas do livro, temas de pinturas corporais indígenas em matizes variados. As ilustrações, que acompanham e enriquecem o texto, são representações visuais de detalhes do nosso imaginário de comunidades indígenas. Aqui, a sua “palavra” também nos remete à nossa história. São trocas que se complementam em linguagens distintas.
O artista obteve, entre outros, o prêmio de ilustrador revelação em 2004 e, em 2007, recebeu menção honrosa na categoria Novos Horizontes do Prêmio Jovem da Feira do Livro de Bologna.

As fabulosas fábulas de Iauaretê
Texto: Kaká Werá Jecupé
Ilustração: Sawara
Editora: Peirópolis
ISBN: 9788575960981
Ano: 2007
Nº de páginas: 84
Vânia Salek
As Aventuras da Onça
Os textos escritos hoje pelos indígenas podem ser vistos como reflexo de uma postura mais afirmativa, adotada por algumas lideranças, em relação ao que significa ser índio. Esses escritos visam mostrar, dentre outras coisas, o quanto as diferentes etnias que habitavam o nosso território, bem antes do descobrimento, contribuíram para a formação da cultura brasileira.
Muitos desses textos são transposições, para a língua escrita, das histórias narradas pelos mais velhos às crianças e aos jovens, há centenas de anos, com o objetivo de preservar as tradições e valores do seu povo, além de ensinar o respeito pela própria cultura e pela vida em comunidade.
O ambientalista e conferencista de origem tapuia Kaká Werá Jecupé é uma das lideranças mencionadas acima. É autor, entre outros, de As fabulosas fábulas de Iauaretê – a onça que virou guerreiro Kamaiurá, casou com Kamakuã, a bela, que gerou Iauaretê-mirim, que perseguiu o pássaro Acauã para conseguir a pena mágica e voar até Jaci-Tatá, a mulher-estrela, senhora do segredo dos poderes dos pajés. Este livro, composto de 16 histórias/capítulos, além de trazer algumas fábulas de origem indígena já recontadas por inúmeros escritores, e há muito incorporadas ao nosso patrimônio cultural, traz, também, as aventuras de Iauaretê-mirim, estas inventadas pelo autor, “de posse do jeito ancestral”, mas com personagens já existentes: o boto, o pirarucu, o Acauã, a mulher-estrela.
As histórias que falam da onça Iauaretê (que é uma das lendas do ideário guarani), de sua transformação em guerreiro, de seu casamento com Kamaiurá e do destino de seus filhos Juruá e Iauaretê-mirim apresentam um certo encadeamento.
As outras, nas quais a onça aparece como personagem representando a força bruta e a estupidez – uma vez que é sempre enganada por animais mais fracos, porém mais espertos –, podem ser lidas isoladamente. Estas histórias, que são bastante conhecidas (embora os animais variem de uma versão para outra), foram recolhidas pela primeira vez pelo General Couto de Magalhães, em 1873, e publicadas em 1874. Em viagens feitas do extremo sul ao extremo norte do Brasil, o General “descobriu que a origem dessas histórias vinha de quatro etnias distintas: os tupi, os kadiweu, os munduruku e os bororo”. Quem nos conta isso é o próprio Kaká Werá, num posfácio breve, porém interessantíssimo.
Além da presença da onça (ou de seus descendentes), as 16 histórias têm em comum a preocupação em transmitir ensinamentos, o que é um dos traços marcantes de várias culturas indígenas. Isto faz com que, algumas vezes, o texto perca em qualidade literária, como em: “Quando você se contraria, e faz coisas que não são da sua natureza, você deixa de se amar.(...) Amar, minha filha, inclui cada um respeitar a natureza do outro”.
Por outro lado, nas passagens mais descritivas, o texto apresenta qualidades poéticas, como pode ser visto em “Anhangá sumiu como um sopro veloz” ou “Era o tempo em que as flores saem das árvores e das plantas”. Já quando a necessidade de explicação torna-se mais importante, a poesia é prejudicada: “Já está na hora de você saber que todos nós, seres humanos, somos estrelas adormecidas dentro de um tronco de árvore, que é o nosso corpo físico”. Priorizar o lirismo subjacente às histórias, sem abandonar a forma narrativa tradicional, é o delicado equilíbrio a ser buscado pelos autores indígenas.
Um outro aspecto a ser questionado é o fato de o autor haver dado o nome de Iauaretê tanto à onça que virou guerreiro Kamaiurá (e personagem de conto de Guimarães Rosa), quanto à onça estúpida que é sempre lograda por outros bichos, uma vez que o único ponto em comum entre Iauaretê e o animal estúpido é o fato de ambos serem onça(s).
As ilustrações de Sawara, filha de Kaká Werá, que na ocasião tinha 11 anos de idade, têm traços característicos de desenhos infantis, feitos com lápis de cor e pastel, e geralmente mostram o que está sendo narrado. O projeto gráfico, como um todo, é cuidadoso e agradável aos olhos, e as páginas pares trazem uma vinheta lateral com desenhos de temática indígena.

Meu vô Apolinário
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Rogério Borges
Editora: Studio Nobel
ISBN: 8585445955
Ano: 2003
Nº de páginas: 40
Formato: 20 x 24
Regina Salamonde
Meu Vô Apolinário
Meu Vô Apolinário deu a Daniel Munduruku a Menção Honrosa no Prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão Tolerância, em 2003, pela UNESCO.
O texto tem narrativa suave de linguagem simples na primeira pessoa. Realmente, é tão presente a oralidade que parece que o leitor está ouvindo um conto, de cócoras, numa roda de fogueira, numa aldeia indígena, em noite sem lua.
Trata-se da história de Daniel-menino e da pessoa que ele vai se tornando, ao longo dos anos de convivência com seu Avô Apolinário. Assim, orgulho de origem, respeito pela tradição, reverência pelo passado, ancestralidade, sabedoria das coisas, paciência, coragem, perseverança, leitura e preservação da natureza são aspectos da cultura indígena que perpassam a narrativa. O menino-Daniel é conduzido por seu Avô em sua aprendizagem e o leitor não só avança, junto com o autor, pelas florestas brasileiras e partilha do seu orgulho por ser índio, mas também compreende a paixão que o educando nutre por aquele Avô que o ensinou a não estar o tempo todo no chão, uma vez que “nascemos com asas para voar em muitas direções, às vezes sem sair do lugar...”
Consegue, portanto, Daniel Munduruku, através de singela história sobre o aprendizado de um menino-índio a respeito de suas crenças, lendas, mitos e origem trazer-nos alguns assuntos de relevância, como a importância do conhecimento de nossas raízes, as consequências do respeito pela tradição e ancestralidade de um povo, e a problemática do conflito entre as diferenças culturais. Aborda ainda o tema tão atual do binômio homem-natureza e nos mostra a sinergia que aí deve existir para não só se adquirir qualidade de vida, mas também se preservar a vida do planeta.
Por tudo isso, concluímos que é leitura recomendada que atingirá leitor de todas as idades.
A ilustração vem-nos por Rogério Borges. Para ele, traduzir, em imagens, as experiências de um índio foi um privilégio. Principalmente por serem essas contadas por ele mesmo (o próprio Daniel) e, também, por haver escassez de informações visuais sobre o povo Munduruku. Este fato demandou que o artista tivesse que combinar várias culturas indígenas para ilustrar o livro.
O resultado foi muito positivo. Rogério Borges escolheu para capa e quarta capa figuras da natureza. Folhas várias, penas, cascas, galhos, frutos, pedaços de troncos, ramagens (urucum) fazem moldura ao título do livro – uma homenagem, talvez, a esta mata em que Daniel viveu. No papel branco, elas ressaltam. Cada uma com a sua singularidade.
A impressão em papel couché fosco valoriza as ilustrações em técnica mista. Estas nos sugerem tanto a rusticidade da cultura indígena, quanto insinuam, através das cores escolhidas e da indumentária representada, um indígena bravo, livre, consciente de sua origem e centrado na sua ancestralidade. Temos, deste modo, uma imagem que enriquece o texto, com uma narrativa visual paralela, que reproduz as experiências de Daniel.
A ilustração do artista reforça a fluência e veracidade do texto e está, sempre, em sintonia com a atmosfera trazida pelas palavras, seja informando, seja traduzindo um sentimento.
Meu Vô Apolinário é belo texto, ilustrado com ricas imagens de uma cultura, pilar de nossa história.

Murugawa: mitos, contos e fábulas do povo Maraguá
Texto: Yaguarê Yamã
Editora: Martins Fontes
ISBN: 9788560156498
Ano: 2007
Nº de páginas: 106
Patrícia Severino
O livro é composto de mitos, contos e fábulas, com as crenças e os ensinamentos do povo Maraguá. Com muita imaginação e criatividade, o autor transpõe da linguagem oral para a escrita a crendice de seu povo, que se assemelha à de muitas nações indígenas brasileiras, com alguns personagens já nossos conhecidos: o boto, Mboi tatá, Curupira, mãe da mata, criaturas célebres, que não poderiam faltar em relato de autoria indígena. E aqui com o diferencial de aparecerem no seu habitat natural, narrado por um nativo.
Na obra, o autor adota o nome de sua família indígena ressaltando sua origem, o que significaria uma valorização de sua cultura que é mais do que uma auto-afirmação, não só para ele, mas também para as crianças indígenas/não indígenas brasileiras. É um grande passo em direção a um futuro melhor, com cidadãos conscientes da diversidade e riqueza cultural de nosso país.
O próximo passo é tornar o trabalho editorial indígena mais acessível aos brasileiros, pois o alto custo dos livros exclui grande parte da camada carente da sociedade do direito ao conhecimento. Não podemos deixar de destacar o grande empreendimento de ONGs e do Governo em criar bibliotecas com ricos acervos, visto que há uma parte significativa de jovens e crianças em nosso País com nenhum acesso ao mundo literário.
Mas, já que sonhar com um mundo, onde a cultura, educação e saúde estão ao alcance de todos é a mesma coisa que embarcar no metrô e ir à lua, deixarei aqui escrito o quanto admiro o NEI (Núcleo de Escritores Indígenas) por suas realizações. Parabéns para Yaguarê Yamã pela maravilhosa ilustração (desenhos retratando a natureza são as meninas dos meus olhos). E até a próxima resenha.

Outras tantas histórias indígenas de origem das coisas e do universo
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Maurício Negro
Editora: Global
ISBN: 9788526012561
Ano: 2008
N° de páginas: 47
Formato: 18 x 23
Vânia Salek
Quem conta um conto...
Baseando-se apenas na memória, dificilmente duas pessoas contarão a mesma história exatamente da mesma maneira. Imaginemos, agora, quantas mudanças, enxertos, omissões certamente ocorreram em relatos que vinham sendo transmitidos de boca em boca, durante muitos séculos, e só recentemente vêm sendo transpostos para a língua escrita pelos seus próprios autores. É natural que, ao longo de tantos anos, novos fatos e vivências tenham sido acrescidos aos relatos originais.
O livro Outras tantas histórias indígenas, de Daniel Munduruku, traz quatro mitos diferentes, de quatro povos indígenas que habitam a vasta região amazônica. Como o próprio título diz, trata-se de mitos que buscam explicar a origem das coisas, de acordo com as diferentes culturas indígenas.
Embora seja razoável supor que, em todas as culturas, os mitos para explicar a origem do universo e das coisas encontrem-se dentre os mais antigos, a versão que hoje nos chega, pela escrita de Daniel Munduruku, é posterior ao contato dos nativos com o colonizador branco. Se, por um lado, esse contato deixou um registro negativo (“Vai haver guerra entre vocês. Vocês irão se matar.”, p.16), por outro lado, as histórias contadas pelos missionários parecem ter deixado marcas na cultura de alguns povos, que tentaram trazê-las para o seu mundo, talvez num esforço para compreendê-las melhor, como se verá a seguir.
O mito que abre o livro, “Assim começou o mundo”, segundo o povo Aruá, do Amazonas, mostra, logo no início, que, para os aruá, água e mundo são uma coisa só: “(...) num tempo antigo o mundo não tinha água. (...) Naquela época não havia ninguém, tudo era vazio, não existia mundo.” Sentindo-se sós, a mãe do mundo (uma jia) e um veado-mateiro, nascidos de si mesmos, resolveram “ter filhos para povoar o mundo”. Foi então que nasceu Deus, que eram três: só que dois irmãos e uma irmã. Um dia, o irmão mais novo, de nome Paricot e o verdadeiro criador de todas as coisas, desejou se casar. Mas a única mulher existente era sua irmã. Paricot, então, tirou uma mulher do buraco da casa do cupim. Assim como Eva foi tirada de uma costela de Adão.
O mito seguinte, “A origem do fogo”, segundo o povo Tariano, do Amazonas, também diz respeito ao que parece ser uma tentativa de compreensão/assimilação dos costumes trazidos pelos missionários católicos, particularmente em relação ao comportamento das mulheres indígenas.
Neste mito, em que o fogo é também associado à luz, o filho do Sol desce à Terra a fim de trazer “alguns costumes (...) para mudar o de vocês homens. Todos cuidarão de suas mulheres para fazer delas gente de bem. Elas (...) se comportarão de forma digna”. Diante de tais palavras, os nativos sentem medo e tristeza: “Nossas mulheres nos contavam coisas boas em nossos ouvidos e nós fazíamos o mesmo. Agora, por que o nosso rosto está como o de quem quer chorar?” O comportamento das mulheres indígenas é questionado com maior clareza quando o moço pescado das águas reluta em comparecer a uma festa na aldeia: “Num primeiro momento o moço não quis ir, por achar que as mulheres poderiam não compreender o seu jeito de ser e querer forçá-lo a coisas que ele não queria (...)”.
“O buraco no céu de onde saíram os Kayapó”, mito desse povo do Pará, é mais curto e direto, aparentemente tendo sofrido menos influência de outras culturas. A história enaltece aqueles que tiveram a coragem de trocar o céu pela Terra, para se tornarem grandes conhecedores da floresta.
Finalmente, para comprovar a diversidade das culturas indígenas, temos um outro mito sobre “A origem do fogo”, este segundo os Bororo, povo de Mato Grosso. Aqui, mais uma vez se percebe que algumas partes da história se perderam e/ou se modificaram pelo caminho. A origem do fogo propriamente encontra-se logo na primeira linha: “Num tempo muito antigo, os Bororo viram um macaco acendendo o fogo e aprenderam a acendê-lo também”. Daí em diante, a história muda de rumo e mostra como o macaco, por ser esperto e por conhecer o fogo, conseguiu enganar o sempre estúpido jaguar.
O mais curioso desse mito é a maneira como o macaco é descrito: “Naquela época, o macaco era muito parecido com os homens: não tinha pelo, comia milho e dormia na rede”. Ou seja, o macaco de hoje é uma espécie resultante da “involução” do homem, o que nos leva a especular: com tantas idas e vindas, será que os bororo já tinham ouvido falar em Darwin?
As ilustrações foram feitas por Maurício Negro, que utilizou “pirogravuras, colorizadas com anilina, café, açafrão, cebola, óleo de nogueira, urucum e outros pigmentos naturais”, como se lê na terceira capa. Maurício mesclou materiais característicos das culturas indígenas (pigmentos naturais) e uma técnica de cultura não-indígena (pirogravura) para criar ilustrações de alta qualidade e forte impacto visual. Donde se conclui que o encontro de culturas diferentes pode resultar em produtos que embelezam a vida e engrandecem a humanidade.

Parece que foi ontem
Texto: Daniel Munduruku
Ed. bilíngue: português/munduruku
Ilustração: Maurício Negro
Editora: Global
ISBN: 8526011189
Ano: 2006
Nº de páginas: 16
Formato: 21 x 27
Íris Serodio
Ciranda de Mitos e Ritos
Bonitas ilustrações, feitas com a técnica de pirogravura, em coerência com a abordagem do texto. Podemos ver os mitos que são narrados através dos desenhos, que imprimem um caráter nativo ao relato. O texto é uma viagem por dentro de um ritual indígena, num tempo qualquer que ficou guardado na memória do autor. É a primeira obra publicada por Daniel Munduruku em português e munduruku, língua falada pelo povo de mesmo nome morador do Pará e do Matogrosso.
O mito nos traz:
A terra, mãe de todos, sempre a nos lembrar que somos fios da mesma teia.
O fogo, irmão de outras eras, libera faíscas irmãs das estrelas.
O vento soprado suavemente, irmão-da-memória.
Já o rito nos traz:
Uma fogueira e todos em volta. Um velho entra na roda lentamente, sem pressa, sem deixar rastro. O fogo, o vento e a terra se animam. O velho sábio inicia um ritual secular para lembrar que temos raízes no passado. Canta e fala com os espíritos. Um homem e uma mulher se juntam ao velho. Ela trás um balde d’água que respinga sobre o fogo que responde com estalidos quase musicais. O velho faz um gesto com as mãos e todos se levantam e iniciam a ciranda numa batida rítmica com os pés, num bailado harmônico e preciso. Há uma belíssima descrição desse ritual sagrado e que as palavras nos transportam para outro universo: aquele da oralidade e da valorização da memória.
O velho no centro da roda dialoga com o fogo, com o vento, com a terra, com a água, enquanto isso todos se mantém firmes no cântico. Daniel Munduruku nos deixa palavras de encantamento e deleite: “Nosso canto e nossa dança são formas milenares de nos mantermos unidos e de mantermos a harmonia do universo. Sem nosso canto seríamos inúteis. Sem nossa dança nada teríamos. (...) O tempo passa pequeno, sem pressa. Ninguém desiste. Nesse momento somos hummmm.”

Sabedoria das águas
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Fernando Vilela
Editora: Global
ISBN: 8526008943
Número de páginas: 32
Formato: 20 X 27
Filomena Sillman
Determinação
Mais uma obra do conhecido autor paraense Daniel Munduruku é apresentada ao público.
O livro Sabedoria das águas traz uma história milenar. Koru, personagem principal da narrativa, busca no Rio Tapajós respostas para a indiferença de seus amigos em relação a ele. Isso se deu após ele haver contado uma visão que teve quando perdido na grande floresta. Só o chefe religioso e sua própria esposa, Maíra, não ficaram indiferentes ao seu relato. Uma vez por ano os guerreiros da aldeia organizam uma caçada em grupo, e nessa ocasião, como castigo, Koru foi excluído.
Sentindo-se desacreditado e humilhado, ele entra no barco, nas águas do Rio Tapajós, em busca de esclarecimentos para os seus conflitos pessoais. Maíra, em solidariedade ao marido, o acompanha.
Koru entrega-se ao silêncio da noite, ouve o barulho das águas, observa que ela não se preocupa com as pedras, os peixes, as plantas...
O relato prende a atenção do leitor, aguça seu imaginário e o emociona quando ele se identifica com alguns personagens. Particularmente, ao término da leitura, senti uma sensação envolvente, de bem estar, como se tivesse vivido aquela história com Koru e Maíra.
As ilustrações são coloridas em tons da natureza, com predominância de terracota e cores escuras, como o azul e o coral. As xilogravuras trazem imagens significativas do meio ambiente como o jacaré, a canoa, os peixes, a água, as árvores...
O livro, dirigido ao público infantil e juvenil, também pode ser apreciado pelos adultos. Daniel Munduruku, em quase todos os livros publicados, tem insistido na questão do respeito à mãe-matureza.

O saci verdadeiro
Texto: Olívio Jekupé
Editora: EDUEL
ISBN: 8572163697
Ano: 2003
Nº de páginas: 48
Formato: 14 x 21
Regina Salamonde
Olívio Jekupé é brasileiro e índio, fiel às suas raízes. Engajado na causa indígena, escreve como representante de uma sociedade de tradição oral, sem escrita. Pertencente ao tronco Tupi-Guarani, como se sabe um dos mais impressionantes e bem documentados do Brasil, esforça-se para ser uma ponte entre o ser-índio e o ser-brasileiro. Bebe, desta maneira, nas fontes de uma narrativa que resiste à passagem de várias gerações com cultura marcada pelo misticismo, espiritualidade e desprendimento dos bens materiais. É, também, rica na habilidade com as palavras e tem um senso poético da vida, características estas que os fizeram sobreviver aos quinhentos anos de tragédia e colonialismo.
A novidade que O saci verdadeiro nos traz é a existência de um saci indígena, descoberta do autor em contatos freqüentes com os Guarani nas várias idas às aldeias do povo de sua avó, em sua busca para resgatar a ancestralidade.
É assim peculiar esta característica que só vem somar àquela já tão conhecida, fazendo com que o nosso moleque lendário seja um resultado de uma mistura afro-caipira-tupi-guarani.
Este elemento tipicamente brasileiro é fonte de estudo para alguns pesquisadores como Renato da Silva Queiroz, Luiz da Câmara Cascudo e Lydia Cabrera. Do trabalho deles construímos um personagem com espírito inventivo, malandro e coxo, que pode ser invisível ou estar em toda parte; prega peças, faz rir, é simpático e, no mais das vezes, não impõe medo. Fuma um cachimbo e usa uma carapuça vermelha na cabeça. Porém, segundo Lydia, a idéia mais divulgada é que o Saci é negro e vem da África. Já Cascudo nos diz que seu gorro vermelho e sua mão furada estão ligados ao folclore europeu, o que nos traz mais um elemento de mistura para o nosso perneta.
A obra resenhada tem duas histórias com narrativas bem simples com as características da oralidade. Os diálogos são ingênuos retratando o dia-a-dia de convivência da vida dos nativos em suas respectivas aldeias. A primeira nos conta a vida de Tupã-Mirim, um indiozinho que tem só um braço e, por isso, é discriminado em sua aldeia. Mais tarde, quando cresce e por ser obediente e amigo do Saci-Pererê, recebe dele um braço, encontra uma mulher que o ama e se impõe na comunidade.
A segunda, que leva o nome da obra, relata a vivência de um indiozinho chamado Karaí que, todos os dias, ouve contos de sua mãe. Porém a que mais gosta é a do Saci-Pererê. O interessante é que, no decorrer da narrativa, vamos constatar que o autor nos traz aí uma dicotomia: o saci negrinho pequeno que anda com um cachimbo, assustando as pessoas, com carapuça vermelha na cabeça e um outro, o “verdadeiro”... “de quem nossos antepassados sempre falaram”, que “é bom e só aparece para pessoas muito boas e que precisam de ajuda.”
Ao final, Olívio Jekupé lança a pergunta;
“_Quem estará certo? E o Saci é um índio ou um negro? ”
Deixo-a no ar. A leitura é fácil. A ilustração é quase inexistente. Rapidinho você saberá... se você o quiser.

O segredo da chuva
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Maria Castanha
Editora: Ática
ISBN: 8508087446
Ano: 2004
Nº de páginas: 62
Formato: 22 x 30
Filomena Sillman
Amor às raízes
Daniel Munduruku, considerado um marco da cultura indígena, nasceu em Belém (PA) e, com raízes na Amazônia, se orgulha de ser indígena e de seu povo. Atualmente, vive entre as cidades grandes e as aldeias indígenas. Formou-se em Filosofia, se aperfeiçoou em Antropologia, Psicologia, História e, junto com outros nativos, criou o Instituto Indígena Brasileiro de Propriedade Intelectual (INBRAPI).
Daniel, preocupado com a formação do povo brasileiro, que ao longo dos anos poderá desconhecer a cultura oral dos nativos, registra sua arte, seus mitos, tradições, brincadeiras, contradições e costumes. Seu texto preserva a cultura dos povos primitivos brasileiros.
O livro O segredo da chuva traz algumas combinações de sons e pensamentos, sob a forma figurada e alegórica de fatos naturais, inspiradas no povo Munduruku do Pará. O leitor poderá se envolver de uma maneira agradável com os mistérios, os suspenses, os fenômenos da natureza, nas aventuras fantasiosas trazidas pelos ancestrais. A narrativa certamente despertará no leitor a possibilidade de valorizar o companheirismo e transmissão de saberes milenares.
As ilustrações coloridas estão em harmonia com o texto, permitindo a quem lê navegar nas cores, nas paisagens da natureza, na pintura corporal dos nativos e na sua forma peculiar de vida. As crianças-indígenas são orientadas por seus responsáveis a procurar o pajé, para obter dele um melhor esclarecimento acerca dos seus conflitos pessoais.
Há uma ilustração, na página doze, na qual podemos sentir que cada indígena carrega o seu povo dentro do peito. Vibram as emoções em respeito aos ancestrais e à comunidade.
No sol, um pajé sentado no seu trono, representando o tempo atual e os anteriores, iluminado pelos ancestrais, irradia calor humano e palavras sábias às crianças e adultos. Os indígenas presentes os cercam para ouvir o que ele tem a dizer e torcem para que Lua, menino interessado no bem comum, aprenda os mistérios de como fazer chover.
Os desenhos traduzem o meio ambiente dos nativos e o momento especial da vida de Lua, personagem que aprendeu que, para fazer chover precisa ser forte, paciente, corajoso, saber ouvir os sons da MÃE-NATUREZA.

Sehaypóri: o livro sagrado do povo Saterê-Mawé
Texto: Yaguarê Yamã
Ilustração: Yaguarê Yamã
Editora: Peirópolis
ISBN: 9788575960776
Ano: 2007
Nº de páginas: 160
Ninfa Parreiras
Uma Coleção de Mitos
Sehaypóri – O livro sagrado do povo Saterê-Mawé é uma obra do autor nativo Yaguarê Yamã, pertencente ao povo Maraguá-Mawé da região norte do Brasil. Uma belíssima reunião de lendas, fábulas, mitos e histórias que falam da origem das coisas.
Sehaypóri na língua Saterê quer dizer coleção de mitos, que estão gravados no remo de madeira Puratig, símbolo da identidade cultural do povo Saterê-Mawé. Minúsculos grafismos gravados no remo contam as origens e histórias ancestrais deste povo, algumas delas centenárias. Os relatos foram pintados de branco e vermelho, cores extraídas do barro-branco taguatinga e das plantas urucum e jenipapo, típicas da região. É um remo que fica guardado em local reservado e sagrado. No remo estão vivas as origens da humanidade, as forças da natureza, as crenças para aquele povo. Agora, transcritas em palavras, as imagens ficarão imortalizadas em relatos.
Considerado o registro da sabedoria para aqueles povos indígenas, o Sehaypóri tem uma importância semelhante à Bíblia dos cristãos e à Tora dos judeus. Nele está a memória deste povo, suas crenças e o entendimento da vida humana. A obra vem dividida em três partes: Os mitos sagrados; As lendas e As fábulas. Em cada parte, há vários capítulos, alguns de caráter local e específico à cultura, principalmente nas lendas e fábulas (“A origem do guaraná”; “A aliança entre os Mawé”; “A origem do caju”); outros de caráter geral, mais presentes na parte dos mitos (“A origem da noite”; “A origem do fogo”). Mesmo ao falar de frutos e animais locais, os relatos apontam valores universais, como o trabalho, a solidão, o amor, a sobrevivência... Vão além das fronteiras da selva amazônica para provar a força das culturas primitivas.
O projeto gráfico e as ilustrações reproduzem a identidade do Puratig, com grafismos, o uso da cor vermelha. A capa em relevo reporta o leitor à textura artesanal. Os desenhos pictóricos trazem a reprodução de bichos, cenas da natureza e representações simbólicas. São imagens que colaboram para o contato intenso com uma cultura antes oral, agora escrita e impressa. Os sentimentos de quem lê, vê e observa certamente serão afetados desde a sensação de percorrer um rio, a estar presente em um ritual ou em uma luta de guerreiros.
A obra tem o caráter de ser um testemunho, que ganhou vida, voz e dinamismo; vai além das fronteiras do local sagrado que guarda o Puratig e leva este repertório mítico para os brasileiros conhecerem mais dos povos nativos que residem em nossas florestas. Com isso, enriquece a produção de obras de autoria indígena destinadas à infância e à juventude. Nossas crianças, adolescentes e também adultos poderão ter contato com culturas e registros antes desconhecidos e com a singularidade de serem assinados por escritores e ilustradores nativos. Isso imprime um caráter novo às narrativas, antes recolhidas por antropólogos e outros estudiosos. Agora, com a palavra, o índio!

As serpentes que roubaram a noite e outros mitos
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: crianças Munduruku da aldeia Katõ
Editora: Peirópolis
ISBN: 8574163598
Ano: 2001
Nº de páginas: 53
Barbara Andersen
Histórias da Floresta
Em As serpentes que roubaram a noite e outros mitos, Daniel compartilha com seus leitores relatos que os velhos do povo Munduruku transmitem de forma oral aos mais jovens. Histórias que contam a origem de tudo e que, segundo Daniel, são reais e se passaram num tempo imemorial.
Narrado em tom de conversa, entremeia os próprios mitos - “A origem dos Munduruku”; “Quando mandavam as mulheres”; “Como surgiram os cães”; “As serpentes que roubaram a noite”; “A morte da velha bruxa” - com o ambiente onde as histórias são contadas e os sentimentos das crianças ao ouvi-las. O leitor se faz parte do grupo de crianças a quem está sendo desvendada a sabedoria de seus ancestrais, num clima de sonho e magia.
Fala de questões essenciais ao ser humano; a origem do universo, a origem dos povos, as relações de poder, o bem e o mal, o egoísmo.
Encontramos elementos familiares a contos, como em “A morte da velha bruxa”. Um casal de irmãos é deixado na floresta pelos pais, por causa da escassez de alimentos. Assim como no conto da tradição oral João e Maria, coletado pelos Irmãos Grimm, as crianças conseguem retornar da floresta uma vez, seguindo uma trilha de milho. Da segunda vez eles se perdem. Após passar a noite com medo e com fome, encontram uma maloca onde vive uma velha cega. Passam a viver com ela até que são alertados, por um pássaro, sobre sua intenção em queimá-los. Seguem o conselho e atiram-na no fogo. Imediatamente os olhos da bruxa saltam e transformam-se em dois cães ferozes, que são amansados quando jogam água sobre eles, o que nos remete ao conto de Hans Christian Andersen, Fyrtøiet, The tinder box. Com esses fiéis guardiões, iniciam uma nova aldeia. Curioso como os mesmos elementos dos contos europeus chegaram ao interior da floresta Amazônica.
Ao final são apresentadas algumas informações sobre o povo Munduruku: onde vivem, como é a vida nas aldeias, brincadeiras e jogos dos mais novos e como aprendem. É apresentada também uma relação de livros e sítios onde mais informações sobre o povo Munduruku e os povos indígenas brasileiros podem ser obtidas.
Ilustrado por crianças de uma aldeia Munduruku, os animais e indígenas, desenhados em preto e coloridos à mão, não destoam do texto.

Txopai e Itôhã
Texto: Kanátyo Pataxó
Editora: Formato
ISBN: 857208259X
Ano: 2000
N° de páginas: 24
Emilia Machado
A Voz da Chuva
Diz a lenda que os índios originaram-se da água e que seu nome vem do som que ela produz: a água da chuva que cai forte – PÁ – e corre volumosa pela terra – TAXÓOOO; o mar que bate na pedra – PÁ – e recolhe-se na onda – TAXÓOO. Kanátyo Pataxó escolheu o tema da origem de seu povo para escrever e ilustrar esse livro destinado à educação das crianças pataxó. Txopai e Itôhã é um livro com intenção de ensino e tem o mérito do esforço inédito em produção de material didático para alfabetização e educação indígenas.
A Constituição de 1988 assegurou aos índios no Brasil o direito de permanecerem com suas culturas e tradições. Com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e o Plano Nacional de Educação, os povos indígenas passam a ter uma escola pública diferenciada, específica, intercultural e bilíngue, inserida no ideal comunitário indígena. Foi através do Programa de Implantação das Escolas Indígenas, que busca dar formação para que os nativos possam assumir as escolas de suas comunidades, que Kanátyo Pataxó escreveu e publicou esse conto.
Txopai e Itôhã está escrito em tom delicado, com a evidente preocupação de cativar o iniciante leitor para o conhecimento de suas raízes, e faz um relato de uma realidade mais simples e mais harmônica com o mundo natural.

Você lembra, pai?
Texto: Daniel Munduruku
Ilustração: Rogério Borges
Editora: Global
ISBN: 8526008056
Ano: 2003
N° de páginas: 32
Formato: 21 x 27
Dilma Bittencourt
Resenhando Daniel: Um Duo no Espelho
Você lembra, pai? Um reflexo de amor. Daniel Munduruku, em prosa poética, fala ao pai com tintas de agradecimento. Pontua com a voz da saudade. Biografia afetiva, com imagens da dualidade de sentimentos. Colóquio de ternura sem pieguice.
Narra histórias em memórias vivas. Como se cristalizasse fatos, apreensões, receios, percepções, ensinamentos, a dor como amadurecimento. Experiências, tradições, traços de cultura, em busca de registros, de perpetuação.
Toma como cenário a própria vida, o cotidiano familiar. O relacionamento pai e filho. E, em paralelo, inclui a referência marido (pai) e mulher (mãe) e as conseqüências dessa relação: reflexão sobre atitudes, certeza de razão, teimosia e sofrimentos. Fala do dual e contraditório comportamento de um ”sabichão” em casa e de um hábil condutor no trato com o outro.
Ao fundo, as iluminadas ilustrações de Rogério Borges, plenas de sombra e luz, focam a repetição, o olhar do menino-índio, ora expressando segurança, ora um misto de inconformidade e desespero. Retratam o homem diante do caminho ambíguo.
Daniel faz um duo de biografia. Espelho de sentimentos, olhares, atitudes, questionamentos. Onde se olha e se interroga, através da figura do pai, como se pedisse confirmação de suas intenções e das intenções do pai. Como se falasse atrasado, diante da imagem do pai no espelho.
Ele fala do duplo. Um elo forte, da relação de sangue, sangue que lhe deu vida. Em posição confortável de escritor-filho. Onde ainda escuta a voz do pai ensinando, sem tom de reprimenda.
E relembra valores repassados por ele, que passeiam com insistência por suas obras. Respeito à Mãe-natureza, aos ancestrais, às etnias, ao outro, ao todo, ao criador.
Em contraponto à esfera de mundo fundamentalista, a obra de Daniel abre à criança o olho do respeito à multiplicidade. Desconstrói as verdades repletas de vazios. Um olhar à sabedoria e ao bom senso. Onde nada se dita. Apenas se conta. As mais simples e profundas histórias de vida.
Obra de Autor Não Indígena

Ao pé das fogueiras acesas
Reconto: Elias José – Fábulas Indígenas Brasileiras
Ilustração: André Neves
Editora: Paulinas
ISBN: 8535621075
Ano: 2008
N° de páginas: 48
Formato: 21 x 28
Rosane Villela
A Noite dos Tempos
Nas labaredas das gerações, o tempo dispara fábulas. E o homem conta a sua arte, aquecido pela magia primitiva da oralidade. De Esopo a Elias José, apenas um sopro, nas diferentes formas de fabular que resgatam o imaginário universal. E o que é de um povo expande-se a favor da humanidade ao pontuar-se através da recriação.
Da ágora — praça pública dos gregos, local dos discursos e discussões na Antigüidade Clássica — aos dias atuais, ainda que o registro das civilizações nos chegue sob a forma de documentos escritos que comprovam ou não a sua autenticidade, o fato é que o homem é um articulador dos tempos. À procura do conhecimento não somente de sua história e da origem da humanidade, como também da magia dos seus inúmeros mitos, lendas e fábulas.
Se, pelo mito, a história de uma civilização pode ser contada pela carga simbólica que adquire para uma determinada cultura; e se, pelas lendas, pode ser sonhada pela narrativa fantasiosa que as inclui; pelas fábulas, o homem encontra o caminho para se exemplificar por meio da representação de uma idéia abstrata, através das figuras dos animais.
Nas fábulas indígenas da obra Ao pé das fogueiras acesas, de Elias José, esta exemplificação procede a cargo da cultura a que elas remetem. Uma exemplificação de ensinamento, própria da nação, em que pesa a sua sobrevivência no meio onde vive. Transferindo a esperteza e a inteligência aos animais que apresentam desvantagem física frente aos outros, as fábulas suscitam situações que sugerem como superar os medos, reagir face ao perigo, ser criativo, estar atento ao inesperado, sobreviver na mata, enfim.
Mas não é por esse viés que o reconto delas feito por Elias José chega ao leitor. É pela força encantatória da ludicidade que sua narrativa o transporta, de maneira muito prazerosa, ao rito da nação indígena, onde muitas histórias são aquecidas e recontadas ao redor da fogueira. O mito indígena, assim, com poesia, é retomado e nos tornamos também parte daquela nação, daquela floresta.
Em seu reconto das fábulas — que, no sumário, aparecem com vinhetas imbuídas de detalhes dos animais, ilustrados por André Neves —, o autor, com sua habilidade indiscutível de contador de histórias, entremeia cantos que lembram brincadeiras provocadoras de crianças arteiras, com a utilização rítmica recorrente dos “Olé, olá, olé, oliri-ri” que iniciam ou finalizam versos, como nas histórias “ O jabuti e a onça” e “O jabuti e o elefante”, e mantém o mesmo entusiasmo de jocosidade em “A esperteza do sapo”, “A raposa e o homem”, “A raposa e a onça” e “As trapalhadas da aranha-caranguejeira”, com uma narrativa tão quanto consistente e repleta de diálogos.
Ainda, em um testemunho de amor à tradição, que apresenta logo na introdução, Elias José homenageia “Esopo, La Fontaine, Sílvio Romero, Câmara Cascudo e muitos outros” e avisa ao leitor para não buscar nas fábulas somente lições de moral. Defende, antes, “as mil formas de fabular e de refabular” para que a chama de imaginárias fogueiras continue vibrando, e expressa a necessidade de não esquecermos a tradição e cuidarmos dos dias atuais, quando afirma: “Hoje, em tempos de fogueiras apagadas, / precisamos fuçar na memória / e catar os cacos dos sonhos / para engrandecer a vida / e não sufocar o mito e a poesia”.
Também motivado pelo eixo comum aos textos apresentados — a ludicidade e a reverência ao gênero —, André acompanha o autor com igual brilhantismo. Sem estabelecer legendas imagéticas ao texto de Elias, com cuidado, oferece, através da brincadeira de suas imagens, diversão ao leitor ao mesmo tempo em que sensibiliza o seu olhar. Para os detalhes que saltam das formas grandes que cria — como os olhos expressivos dos animais, que caracterizam seus sentimentos. Para as particularidades que pinça do texto — como na ilustração enorme do elefante que ocupa uma página e meia, para contrapor-se à do pequeno jabuti que com ele dialoga em pé sobre uma pedra, num cantinho da mesma página. E para o movimento dos seus traços — como o fio onde a aranha-caranguejeira se balança; a tromba do elefante que parece mergulhar numa página inteira, para segurar a ponta de uma corda afundada no mar, para o início de uma disputa; e as letras do título Ao pé das fogueiras acesas que podem ser visualizadas chispadas, na cor alaranjada da brasa, pelas labaredas da fogueira acesa que é circundada pelos animais da floresta.
Tanto Elias José como André Neves, cada um a sua maneira, participam do existencialismo fabuloso ao recriarem a sua própria fábula, tão verdadeira, na intertextualidade com o fio condutor primeiro, o das fábulas indígenas. Com independência um do outro, ainda que alimentados pela mesma linguagem da ludicidade, abrem campos de alimentos distintos ao nosso olhar que, por sua vez, também recria.
Sai o leitor ganhando duplamente, embevecido pelo clima de magia e poesia que perpassa toda a excelente edição da Paulinas, cujas cores diversas e harmoniosas de páginas — em tons que passeiam do preto ao amarelo vibrante —criam a atmosfera propícia e também fabulam para contar a noite dos tempos.